A Questão da Técnica no Cinema Digital

 

A Questão da Técnica

Compreendido aqui como um novo suporte no armazenamento e distribuição de conteúdo, o registro digital da imagem no cinema é a manifestação artística orientada a partir de uma lógica de computação binária. Ou seja, em se tratando de tecnologia digital, a informação passa a ser processada em uma linguagem invariavelmente codificada em zero (0) e um (1).

Esse conceito de digitalização leva em consideração a tradução de átomos para bits, ou seja, a imagem, que antes possuía um suporte físico na película, agora passa a ser registrada em espaços imateriais de informação. Este processo de desmaterialização dos suportes de informação democratiza a produção de conteúdo ao mesmo tempo em que favorece a manipulação da mesma.

Martin Heidegger, filósofo alemão do início do século XX, em seu estudo sobre a tecnologia moderna, nos ajuda a pensar esse novo modus operandis do fazer cinematográfico ao cunhar o conceito de gestell (composição, enquadramento). De acordo com Heidegger, a tecnologia imprime à arte um sistema de ordenação, que seleciona, captura, armazena e distribui os elementos de natureza.

Nesse sentido, se o registro em celulóide já demandava todo um aporte técnico, seja na captação sonora ou na iluminação da mise-èn-scene, capaz de interferir na representação da realidade, a nova relação estabelecida pelo digital consolidaria assim a descentralização do homem como regente da verdade, que agora não seria mais capaz de controlar o sistema, atuando como um mero estoque de reserva à catalisação deste.

A facilidade no acesso e domínio do código solidifica uma rotina tecnológica que se sobrepõe às questões artísticas. A própria razão de existir das novas mídias está ameaçada por um esforço muito mais preocupado em criar, modificar e produzir obras do que propriamente despertar questões mais profundas. Afinal, se a fixação operacional leva a uma necessidade pela participação ativa, em que assistir não é mais suficiente, como diferenciar os valores artísticos desta geração do cinema de todas as demais realizações possíveis no intercurso entre usuário e informação?

Conforme aponta Heidegger, o caminho para a superação do problema está em extrair a essência da tecnologia, que, por sua vez, não está relacionada com a máquina e tampouco com o tecnólogo, mas sim com o campo da poieses (desvelar, desabrochar). O desafio está em extrair e distribuir o que antes estava escondido, buscando no digital uma revelação que aproxime novamente o cinema do campo da arte.

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