Mídias Locativas: entre átomos e bits

Em “A Questão da Técnica” (1954) Martin Heidegger recusa a visão instrumentalista da tecnologia. Isto é, a técnica moderna não deve ser discutida como algo neutro e passível de controle. Segundo o filósofo alemão, a Revolução Industrial provocou a reinterpretação da essência da técnica, em que essa passou de uma “[…] forma de aparição poética da phisis” (RÜDIGGER, 2006, p.137) para “ […] uma forma de exploração funcional do mundo” (RÜDIGGER, 2006, p.137).

É neste contexto que emerge a Gestell, o conceito se refere “[…] a força de reunião daquele por que põe, ou seja, que desafia o homem a des-encobrir o real no modo da dis-posição, como dis-ponibilidade” (HEIDEGGER, 2002, p. 24). De acordo com Heidegger (2002), o desencobrimento que rege a técnica moderna tem a extração, a transformação, o estocamento, a distribuição e o processamento como modos de operação, em que os recursos são convertidos em estoque de reserva, podendo ser acionados a qualquer momento.

Este sistema pautado pela exploração da ambiência pode ser observado na contemporaneidade através das mídias locativas. O processo de ordenamento da tecnologia faz com que o lugar abandone o posto de intermediário, passando a ser o mediador das interações. Segundo Lemos (2013, p.201) as mídias locativas são “[…] tecnologias de comunicação e informação, bem como serviços correlatos baseados na localização dos dispositivos”. O fenômeno abrange aplicativos de geolocalização, mapas colaborativos, realidade aumentada, anotações com QR Code, etiquetas RFID, entre outros (LEMOS,2013).

Criado 2009, o Foursquare permite que o interagente compartilhe sua localização geográfica (check-in) com seus seguidores por meio do sistema de GPS de seu dispositivo (DIJCK, 2013). Atualmente, o aplicativo conta com 55 milhões de usuários, totalizando 7 bilhões de check-ins em todo o mundo (LUNDEN, 2015). A plataforma materializa o modo de operar da técnica moderna, pois o espaço físico passa a ser explorado, capturado, armazenado e distribuído. Desta forma, a partir do momento em que o lugar dialoga com os dispositivos móveis a maneira como a sociedade, produz e distribui informação no espaço urbano é alterada.

Em contrapartida, as mídias locativas também apresentam uma saída para o sistema autorregulador da Gestell. Discutido por Santaella (2010, p. 126-129), os projetos de mídias locativas no campo das artes têm como ponto fundamental a interação pessoal e social com os lugares. Hibridizando as mídias locativas e a arte, o VIA, de João Queiroz e Daniella Aguiar, usa a geolocalização para oferecer ao público dança e música.

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Trecho do vídeo-dança que compõe o projeto VIA. Fonte: Locative Art

Ao escanear um dos QR Codes espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro, o interagente terá acesso aos conteúdos audiovisuais e as composições de Luiz Castelões que integram o projeto.

Referências

DIJCK, José Van. The Culture of Connectivity: A Critical History of Social Media. Oxford University, 2013.

HEIDEGGER, Martin. A questão da técnica. In: Ensaios e conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvam Fogel e Márcia de Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2002.

LEMOS, André. A comunicação das coisas: teoria ator-rede e cibercultura. São Paulo: Annablume, 2013.

LUNDEN, Ingrid. Yahoo In Talks To Buy Foursquare. Techcrunch, 2015. Disponível em: <http://techcrunch.com/2015/04/15/sources-yahoo-in-talks-to-buy-foursquare/#.imjtmk:dbXz&gt;. Acesso em: 16 ago. 2015.

RÜDIGER, Francisco. Martin Heidegger e a questão da técnica: Prospectos acerca do futuro do homem. – Porto Alegre: Sulina, 2006.

SANTAELLA, Lucia. A ecologia pluralista da comunicação: conectividade, mobilidade, ubiquidade. São Paulo: Paulus, 2010.

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