O fetichismo tecnológico em Heidegger

As proposições apresentadas por Heidegger no ensaio “A questão da técnica”, de 1954, revelam a tecnologia como uma força com vontade própria. Esse determinismo técnico, que ressoa uma vontade de potência nietzschiana, denuncia uma força que não está encerrada em uma ideologia, que não foi criada com desígnios políticos nem proposta a partir de imposições valorativas, mas um vetor que não está sequer sob domínio do homem: trata-se de uma força motriz que escapa de nosso controle. A técnica não surge de uma vontade do homem. Também não é o homem uma máquina de sobrevivência manipulado pela técnica (como sugere Richard Dawkins e sua teoria memética); é, contudo, uma imposição. Se para Heidegger “a essência da tecnologia não é de modo algum algo tecnológico”, a essência não reside em objetos físicos, mas sim num determinado tipo de pensamento.

Quando se propõe a pensar a técnica, Heidegger se volta aos gregos e a define como aquilo que deriva da techné (termo utilizado para definir o fazer manual e também o feitio artístico, a poiesis). A techné é algo que “leva à frente” (bringing-forth no inglês, pro-dução na tradução de Emanuel Carneiro Leão e produzir na tradução de Marco Aurélio Werle), não somente uma criação manual ou uma reprodução mimética: é um produzir que leva do oculto à descoberta, que revela algo não em si mesmo, como no physis da natureza, mas num outro que não se produz sozinho. A potência que os gregos viam na physis da natureza, Heidegger vê no homem por meio da técnica.

Para os gregos, a techné está associada à Epistemê e ambas, em sentido amplo, denominam o conhecer (o saber é, pois, um desabrigar). A técnica é, assim, o momento em que a aletheia, a verdade, aparece. Heidegger enxerga continuidade na técnica moderna: para ele, a técnica que “repousa sobre a moderna ciência exata da natureza” também tem em sua essência um desabrigar, uma aletheia. É, contudo, um desocultamento que não se desdobra numa poiesis, mas num desafiar, um requerer, que “impõe à natureza a pretensão de fornecer energia”.

Esse desafiar é um extrair, pois simultaneamente explora e expõe, criando uma condição de bestand (dis-ponibilidade ou posição de subsistência), a partir da qual enxergamos a realidade como uma reserva disponível, uma fonte de recursos, como se tudo em nosso entorno estivesse disponível para transformação e armazenamento: a árvore é, virtualmente, madeira: basta um desafiar a natureza para atualizá-la. A esta invocação que direciona o homem a requerer o que se desoculta Heidegger denomina Ge-stell (enframing, armação ou com-posição): é a essência da tecnologia pois é a partir dela que a verdade se revela como disponibilidade. Interpretamo-a aqui como uma força vital, não visível nem passível de ser controlada, mas certamente inegável, que impele o ser humano a encontrar a aletheia na disponibilidade.

A técnica moderna é, pois, guiada por sua finalidade utilitária: é um modo de desabrigar que não está sujeito à poiesis, mas tem interesse na utilidade do objeto, manipulando o ambiente no intuito de potencializar os resultados. É desta forma que podemos atribuir ao ge-stell uma maneira particular de ver e estar no mundo, considerando aquilo que o compõe como recursos com valor de exploração, o que reduz a beleza latente (a poiesis) à sua potencialidade de uso.

O pensamento tecnológico, portanto, encontra sua expressão na eficiência, no desejo de facilitar a vida através da manipulação de recursos presentes no mundo. Ao contrário do que é sugerido no pensamento ensaístico intrínseco a muitas obras distópicas, a tecnologia aqui não é o problema: o que condena o mundo à extração inescrupulosa e à exploração desmedida dos recursos é o pensamento tecnológico, esta armação, pois é ele que impulsiona esse comportamento que tem como objetivo a vontade de eficiência, um fetichismo tecnológico.

Este niilismo tecnológico nos remete a narrativas distópicas em que a ciência é o imperativo do mundo e a tecnologia opera como seu carro-chefe — do universo Orwelliano às narrativas de Riddley Scott e o absurdo cômico das proposições de Terry Gilliam, o receio de uma sociedade tecnocrata que extraia do homem a sua humanidade e o transforme em mera ferramenta sob domínio da técnica é um tópico recorrente em produtos culturais do último século.

Uma visão um pouco mais interessante para esta análise pode ser encontrada em algumas produções que voltam seu interesse à pauta ecológica sem, contudo, demonizar a tecnologia. Destacamos o filme Wall-E (2008)* que narra a história do robô homônimo, um Prometeu tecnológico designado a fazer a manutenção de uma Terra abandonada e estéril, decorrência de uma era de consumismo massivo que resultou no evacuamento da população — esta que agora vive completamente dependente da tecnologia que um dia minou seu ecossistema.

Ao citar os versos de Hölderlin “mas onde há perigo, cresce também a salvação”, Heidegger propõe que neste perigo de assujeitamento à técnica reside também a redenção. Isto porque Heidegger não considera a técnica como o perigo em si, mas sim a visão embotada provocada pelo determinismo instrumental. O perigo não é a máquina, mas o pensamento que dá sustentação ao paradigma meramente instrumental. O homem pode não ter domínio sobre a técnica, mas tem domínio sobre sua relação com ela.

A “salvação” em Heidegger não está associada à ideia de reter uma ameaça destrutiva proveniente da tecnologia nem mesmo abandoná-la em direção a um radicalismo anti-tecnológico. Salvar é “recolher na essência”, “trazer a essência a seu autêntico aparecer”, porque a tecnologia é capaz de nos manter cegos quando a consideremos apenas do ponto de vista instrumental — como no filme Wall-e, em que a humanidade se submete às determinações das máquinas e torna-se incapaz observar outras pessoas ou o mundo ao seu entorno: a humanidade perde sua sensibilidade para a poiesis pois está cegada pela tecnologia.

E é neste lugar onde reside o perigo que pode emergir a salvação. “Enquanto representarmos a técnica como um instrumento, permaneceremos presos à vontade de dominá-la”, afirma Heidegger. Devemos, portanto, ter em vista a essencialização da técnica, que abriga em si “o possível emergir da salvação”.

É o afastamento, em Wall-e, que permite a emergência da salvação: é quando a humanidade distancia-se da técnica e a observa sobriamente, sem seu encantamento, que a salvação pode irromper-se. Redescobre-se a magia da natureza, o desocultamento não enquanto desafiar, extrair ou explorar, mas como colaboração de forças:

É através deste distanciamento, portanto, que se torna possível um reencontro entre a técnica e a arte, a techné com poiesis, o produzir artístico em associação com o produzir técnico.

*Curiosamente essa nova pauta tecnológica pode ser encontrada em obras voltadas para o público infantil. Outros filmes que podem ser analisados sob uma perspectiva semelhante são as produções dos Studios Ghibli, em especial os ecofriendly Nausicaa (1984) e Pom Poko (1994).

Referências:

HEIDEGGER, Martin A questão da técnica. Tradução de Marco Aurélio Werle. Scientiae Studia, São Paulo, v. 5, n. 3, p. 375-98, 2007.

______. A questão da técnica. In: ______. Ensaios e conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Vozes, 2002.

______. The Question Concerning Technology. In: ______. The Question Concerning Technology and Other Essays. Tradução de William Lovitt. Nova York: Harper & Row, 1977.

RÜDIGER, Francisco. A questão da técnica: esclarecimento e circunstâncias. In: ______. Martin Heidegger e a questão da técnica: prospectos acerca do futuro do homem. Sulina, 2006.

SILVA, Franklin Leopoldo. Martin Heidegger and Technics. Scientiae Studia, v. 5, n. 3, p. 369-374, 2007.

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