Senhores ou escravos? A técnica em Heidegger e a dependência da internet

Martin Heidegger discute em “Ensaios e Conferências” a essência da técnica, segundo ele, esta remete ao nosso modo de ser, tendo em vista que impulsiona o ser humano a buscar o controle sobre o movimento da existência. A essência da técnica, portanto, se relaciona antes com um aspecto ontológico do que com um técnico. Dessa maneira, seria possível vislumbrar outros modos de ser caso a essência da técnica fosse compreendida de modo que o humano pudesse estabelecer uma relação mais harmoniosa com a mesma.

Entretanto, o instrumentalismo (que norteia a ciência positivista) faz com que nossa espécie se sinta à vontade para (tentar) impor seu domínio sobre o mundo, inclusive sobre a técnica – o que segundo Heidegger é uma ilusão: a técnica não está ao alcance de nosso controle ou vontade, porém, tampouco nos governa, quanto mais nos investimos da condição de dominadores da técnica, mais somos dominados por ela.

É possível estabelecer um paralelo entre o pensamento heideggeriano e uma nova situação com a qual nos deparamos na contemporaneidade: a dependência da internet. A popularização do acesso aos computadores e à rede no último quarto do século XX não nos trouxe apenas aspectos positivos. De acordo com o site do Serviço do Ambulatório de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo que fornece informações e ajuda a adictos da rede

“Cada vez mais pessoas buscam ajuda para o tratamento das dependências tecnológicas (internet e vídeo game), devido a vários aspectos psicológicos (baixa autoestima, depressão, fobias sociais, dentre tantos outros) e sociais (a solidão, isolamento e o estilo de vida nos grandes centros urbanos)”.

Ainda segundo o site, o panorama é resultado do crescimento do acesso à internet e da tendência ao sedentarismo e reclusão emocional.

Dependência Internet

A constatação de que existem pessoas dependentes da internet nos mostra que o convívio do humano com a essência da técnica tem sido problemático. O amplo acesso à internet que parecia satisfazer o desejo instrumental de nos tornarmos senhores da técnica também revela nossa faceta de escravos. A ambivalência das potencialidades da rede – que tanto pode conectar como isolar, servir ao vício ou a liberação – nos leva a perguntar: será a relação harmoniosa entre humano e a essência da técnica uma ilusão?

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