A foto como legitimadora da realidade: reflexões sobre o conceito de aura na fotografia

Vivemos num mundo dominado pelas imagens e pela necessidade de se registrar tudo. Em 1843, apenas alguns anos após a invenção da câmera fotográfica, o filósofo alemão Ludwig Feuerbach afirmou que “nossa era prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser”.

A fotografia, cujo status de arte só foi atribuído após a industrialização, teve seu primeiro uso popular relacionado aos registros de comemorações familiares. O desenvolvimento da tecnologia permitiu o fácil acesso a dispositivos que possuem a função de fotografar, além de, como afirmou Susan Sontage em “Sobre fotografia”, difundir uma mentalidade que nos faz enxergar o mundo como “coleção de fotos potenciais”.

A fotografia legitima a experiência. A necessidade de fotografar tantos momentos quanto possível (dos mais importantes, como o registro de momentos históricos, aos mais corriqueiros, como uma simples refeição) cria em nós um consumismo estético que transforma a nossa experiência em visão. A sensação que temos é que algo, de fato, aconteceu se foi fotografado (e, se possível, compartilhado).

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Louis Daguerre, inventor da câmera fotográfica, em 1839, descreveu sua invenção, a fim de atrair investidores, como um instrumento que não apenas servia para retratar a natureza como dava a ela a capacidade de reproduzir-se. No ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” Walter Benjamin discorre sobre como as reproduções podem manter intacto o conteúdo do original, mas desvalorizam o seu aqui e agora, ou seja, como elas perdem a sua aura. Esta é composta por elementos temporais e espaciais e seu declínio está relacionado ao movimento das massas, que têm a reprodução como uma tentativa de aproximação dos objetos.

Considerando a proposição inicial de Feuerbach, sobre a preferência da imagem (cópia) à coisa retratada (original) e nosso fascínio e necessidade pelo registro fotográfico, poderíamos supor, à luz do conceito de aura desenvolvido por Benjamin, a existência de outra classificação de aura, exclusiva das cópias, sobretudo quando falamos de fotografia?

O argumento utilizado é o de que, a partir do momento em que o registro fotográfico é o instrumento que torna real a experiência vivida o “aqui e agora” ganha outra dimensão espaço-temporal e passa a estar relacionado à fotografia em si. A aura do original (situação a ser fotografada) passa a ter menos valor do que a aura da cópia (a fotografia). Esta inversão de valores continua a não oferecer à cópia unicidade e autenticidade, mas faz dela tão ou mais importante que o original.

Esta discussão nos coloca a pensar como nossa percepção de mundo se altera à medida em que a tecnologia evolui e como vamos definindo novos rumos para nossa existência.

Referências

BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Ensaios Sobre Literatura e História da Cultura. Obras Escolhidas. Vol. 1. São Paulo, Brasiliense, 1994.

SONTAG, Susan. Sobre fotografia. Trad. Rubens Figueiredo. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2004.

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