Benjamin, Heidegger e a Arte na modernidade

Se a técnica moderna em Heidegger é uma força com vontade própria cuja essência não é, de forma alguma algo tecnológico, mas o desocultamento exploratório da reservas da natureza; em Benjamin, a técnica moderna, em especial as máquinas de imagens passíveis de reprodução, atrofia a aura da arte dada a sua reprodução reiterada, que por sua vez parece também possuir volição própria. Enquanto Heidegger propõe um pensamento na esfera ontológica, Benjamin sugere o debate político da imposição voraz da modernidade técnica.

A modernidade é compreendida como o período demarcado nas sociedades ocidentais que decorre da revolução industrial em que a racionalização emerge como preceito nas várias esferas da sociedade. Ocorre, portanto, a secularização, dissolvendo os laços religiosos presentes em algumas esferas da sociedade; e a valorização da ciência, que passa a ser o imperativo da verdade.

Por um lado, a secularização leva à racionalização da cultura e, em especial das artes, pois a igreja, que até então assumia o papel de patrona cultural, deixa de exercer domínio sobre as artes — que passam, portanto, a operar sob outras lógicas, como a imposição mercantil. Por outro lado, o imperativo científico guia a sociedade ocidental a um positivismo, a um ímpeto de progresso por meio da tecnologia que configura uma exigência produtiva cada vez maior. Estes dois fatores demonstram como é possível caracterizar um modelo de mundo moderno tal como nos sugere Heidegger e Benjamin, em que a tecnologia é um imperativo e a obra de arte tem, assim, que se adaptar a esse paradigma.

Ainda que associada a uma lógica mercantil, a arte mantém seu papel de redentora do homem: “assume uma função de salvação neste mundo, não importa como isso possa ser interpretado. Proporciona uma salvação das rotinas da vida cotidiana, e especialmente das crescentes pressões do racionalismo teórico e prático” (WEBER, 1982, p. 391).

Essa salvação descrita por Weber tem ecos de semelhança com a salvação descrita por Heidegger na medida em que seus efeitos nos direcionam para uma contemplação de um mundo externo ao racionalismo teórico, alheia à pressão do determinismo tecnológico.

Assim como Benjamin, Heidegger sabia da importância da técnica para compreensão da modernidade e também negava a visão instrumental da técnica e sua compreensão como um meio que age sobre o mundo e o transforma, tal qual propunha o marxismo. Ainda que assuma seu partidarismo marxista na análise das transformações da arte no contexto das modificações tecnológicas da modernidade, Benjamin deposita essa transformação na materialização dos meios técnicos em si que emergem no fim do século XIX, possibilitando a reprodução da obra de arte.

Se a tecnologia moderna gera em Heidegger um bestand, um mundo de objetos sem valor em si, em Benjamin ela retira o valor de culto da obra de arte, acentuando seu valor de exposição e, portanto, seu caráter de fugacidade, homogeneização e repetitividade, tornando-a mais acessível, aproximada: um objeto de fetiche, uma desestetização da arte.

Nenhum dos autores, portanto, demoniza a técnica, contudo não a consideram neutra. Ambos sugerem a possibilidade de uma redenção por meio da própria arte, uma redenção que não reside no dominar da técnica, mas no afastamento e na observação sóbria, como sugere McLuhan, em sua “parábola do redemoinho”: a tecnologia é uma força que não se pode combater nem negar, mas é preciso compreendê-la e, prevendo suas ações, podemos manter nossa humanidade. Não basta, portanto, negar, vociferar, indignar-se ou recusar a tecnologia, mas é preciso manter a vigilância produtiva diante da técnica. É como a famosa frase atribuída ao presidente americano Thomas Jefferson: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”.

Referências:

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica. Obras escolhidas, v. 1, 1975.

HEIDEGGER, Martin A questão da técnica. Tradução de Marco Aurélio Werle. Scientiae Studia, São Paulo, v. 5, n. 3, p. 375-98, 2007.

SÁ, José Carlos Vasconcelos. A Crítica da Técnica e da Modernidade em Heidegger e McLuhan. Interações, v. 1, n. 1, 2001.

WEBER, M. Ensaios de sociologia. 5 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

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