O complexo casamento da arte com a tecnologia [Questão 3]

Comente as seguintes passagens a respeito da relação da arte com a tecnologia:

“Podemos considerar a relação da arte com a tecnologia como um casamento marcado por períodos de harmonia e de crises conjugais”.

“Toda arte produzida no coração da tecnologia vive, portanto, um paradoxo e deve não propriamente resolver essa contradição, mas pô-la a trabalhar como um elemento formativo”.

Em “Cenas de um casamento”, entretítulo que integra o capítulo “Máquina e Imaginário”, Arlindo Machado (1993) traça um retrospecto da tênue relação da arte com a tecnologia. O autor inicia a discussão destacando a origem da palavra grega téchne e se estende até a contemporaneidade, citando trabalhos artísticos que são desenvolvidos em parceria com as indústrias de tecnológicas de ponta. O trecho “Podemos considerar a relação da arte com a tecnologia como um casamento marcado por períodos de harmonia e de crises conjugais” enfatiza a relação simbiótica das duas áreas firmada desde a Grécia antiga até o renascimento e a polarização causada pelo romantismo.

Machado (1993) afirma que os gregos, destacando a própria epistemologia da téchne, não faziam qualquer distinção entre a arte e a técnica. Leonardo da Vinci, Dürer e Piero della Francesca, por exemplo, compartilhavam teorias e conceitos de ambas as áreas. O autor pontua que esse ‘casamento’ entre a arte e a tecnologia também pode ser observado no renascimento.

As obras de Da Vinci materializaram o casamento da arte com a tecnologia.

Porém, conforme defende Machado (1993) o romantismo com os conceitos da genialidade individual e do papel imaginário da arte causou o ‘divórcio’, a separação dos âmbitos. Neste contexto, a arte passa referir-se à vida interior e a subjetividade do homem, enquanto a técnica se torna puramente mecânica e objetiva.

Entretanto, segundo o autor a relação da arte com a tecnologia é de extrema complexidade e não deve ser discutida de forma simplista. As exposições Electra (Paris, 1983), Les Immatériaux (Paris, 1985), Arte e Tecnologia (São Paulo, 1985) e Synthesis (Colônia, 1986) demostram a dificuldade de fazer uma separação categórica entre o universo da ciência, da tecnologia e da arte. O mesmo pode ser observado na parceria entre os artistas e os grandes laboratórios de pesquisa tecnológica, em que a arte é peça fundamental para o rompimento dos paradigmas. Machado (1993) ressalta que a aproximação das áreas não faz com que o artista se submeta à tecnocracia, pelo contrário o sponsoring (financiamento da arte por grandes empresas) sempre permeou a história da arte.

Exposição Les Immatériaux , realizada no Centre Pompidou em 1985.

Já no trecho “Toda arte produzida no coração da tecnologia vive, portanto, um paradoxo e deve não propriamente resolver essa contradição, mas pô-la a trabalhar como um elemento formativo”, Machado (1993) destaca que se o romantismo polariza a arte e a tecnologia causando o ‘divórcio’ dessas áreas, na contemporaneidade é firmado um novo contrato matrimonial. Segundo ele se trata de “[…] uma adesão tensa, em que cada parte não se deixa mais dissolver na outra, nem se tornam ambas homogêneas ou idênticas” (p.27). A partir desse momento, a produtividade tecnológica passa a conviver com a gratuidade anárquica da arte. Machado (1993) pontua que ao firmar parcerias com centros de pesquisas e ter acesso a tecnologia de ponta o artista passa integrar um ambiente pragmático que exige sistematização e eliminação do improviso. Entretanto, o trabalho artístico caminha em direção oposta à tecnocracia. Desta forma, a arte contemporânea vive um paradoxo, pois está entre os padrões de produtividade da indústria e as liberdades do imaginário do campo artístico.

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