Artes híbridas – Estudo dirigido

Questão 10: Qual é a relação entre a seguinte passagem do texto de Santaella e o conceito de arte tecnológica exposto no texto de Martin Heidegger “The question concerning technology”?

“Nessa medida, a arte tecnológica se dá quando o artista produz sua obra através da mediação de dispositivos maquínicos, dispositivos estes que materializam um conhecimento científico, isto é, que já têm uma certa inteligência corporificada neles mesmos.”

No capítulo “Panorama da Arte Tecnológica”, Santaella procura estabelecer a distinção entre a técnica para se produzir arte e a arte tecnológica.

De acordo com a autora, a arte sempre fez uso de técnicas — assumindo aqui o termo como os procedimentos necessários para se elaborar algo, bem como o know-how e a habilidade envolvidos no processo –. A arte pré revolução industrial era puramente artesanal, ou seja, elaborada à mão e dependente, sobretudo, do fazer humano para corporificar o imaginário em objeto artístico concreto. De maneira semelhante, Heidegger, tendo como referência o pensamento grego, propõe uma divisão entre a produção técnica antiga e a moderna. Encontramos na primeira uma técnica que está associada ao desvelamento, ao desocultar algo, “trazê-lo para frente”, que envolve um enxergar a potencialidade na matéria e fazê-la vir à tona através do trabalho técnico. Heidegger associa essa forma de desencobrir à aletheia, a verdade, e traça um paralelo entre o fazer do homem, a poiesis, e o fazer da natureza, a physis. A obra de arte em Heidegger é, portanto, associada a uma operação da natureza como um todo.

A revolução industrial assegura o surgimento de diversas máquinas, e Santaella ressalta dentre elas a câmera fotográfica, que decreta fim à supremacia artesanal e inaugura as artes tecnológicas. O saber técnico encarnado numa máquina agora prescinde do corpo humano para operar. Essas máquinas são, segundo a autora, máquinas de linguagem, portanto máquinas semióticas.

Heidegger avista, após a revolução industrial, um imperativo em direção à produção, uma armação que age como força impositiva da subjetividade moderna. Esta técnica moderna também tem em sua essência o desvelamento mas não é um desvelamento associado à poiesis, mas a um desafio, uma exploração da natureza, que fere a possibilidade da physis. Ao afirmar que os dispositivos tecnológicos “já têm uma certa inteligência corporificada neles mesmos”, Santaella sintomatiza o conceito de armação em Heidegger, sugerindo que a técnica moderna, guiada por sua finalidade utilitária, reduz a beleza latente no mundo à sua potencialidade de uso.

Citando os versos de Hölderlin “mas onde há perigo, cresce também a salvação”, Heidegger nos dá a entender que de onde surge um perigo de automatização e de esvaziamento do sujeito (ou seja, na técnica moderna), emergirá também a possível redenção, portanto não devemos pensar na técnica como um instrumento, mas nos voltarmos para sua essência.

Anúncios

Um comentário sobre “Artes híbridas – Estudo dirigido

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s