Comentários acerca do Sublime tecnológico

O advento de tecnologias abriu uma nova época do estético: ao mesmo tempo que iniciam um processo de corrosão da essência da arte, desencadeia também um movimento de superação da arte, que, para o autor, conduz à produção e apreciação socializadas do sublime.

Este sublime não é aqui pensado em relação ao belo. Com efeito, o sublime evocado no texto encontra suas raízes em Kant, não pode, de forma alguma, ser inerente à arte, isso porque o sentimento do sublime, mesmo sendo formado por um complexo jogo simbólico, é composto daquilo que está aquém da função simbólica, que não pode ser reduzido à escala humana.

Para exemplificar, Mario Costa propõe pensar o conceito de sublime em três autores: Kant diria que o sublime é o absolutamente grande, excessivo, colossal; enquanto Derrida questiona se o sublime não poderia ser, em oposição, o pequeno. Já Hofmannsthal pensa o sublime a partir do modesto, humilde. O sublime origina da impossibilidade de expressar em palavras a simples existência, como um filme de Ozu.

Esteja no horizonte do infinitamente pequeno ou do absolutamente grande, ele é sempre gerado por uma crise do simbólico, isso porque o sublime que é incapaz de ser domado: não é possível domesticá-lo pela palavra ou pô-lo numa forma numa medida antropocêntrica, porque a palavra é da esfera da cultura, portanto, humana e o sublime parece estar na esfera inapreensível dos possíveis.

A obra de arte se encontra na esfera daquilo que é simbólico, cultural, daquilo que já foi domesticado pela palavra e formatado na escala humana. É por isso que, segundo o autor, nenhuma obra de arte poderá proporcionar o sentimento de sublime.

Como no caso do filme Sinédoque, Nova York (2008), em que o diretor de teatro Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) tenta reproduzir metonimicamente sua vida em uma peça, falhando miseravelmente na tentativa de apreender o sublime, que está sempre fora de seu alcance; cada falha sua acompanha uma nova dilatação do universo que tentar representar e a cada momento sua tentativa de domesticar o mundo, de contê-lo e apresentá-lo no espaço de uma peça se torna mais frustrada:

O sublime é descrito não como um prazer, “mas uma espécie de assombro prazeroso”, um “sossego misturado ao espanto”; um movimento da alma que é alternadamente atraída e repelida por um objeto. Segundo Costa, aquilo que é absolutamente grande na natureza (sua infinidade, sua infinita potência), gera em nós um sentimento que é oposto ao interesse dos sentidos (porque não conseguimos mensurar), denunciando a infinita potência da natureza e nossa infinita fraqueza diante dela. Por isso o sublime provoca, ao mesmo tempo, um sentimento de admiração e arrebatamento.

O sublime consiste, então, em experienciar simultaneamente esses dois sentimentos contrastantes: o prazer proporcionado pelo sublime não é possível senão mediante um desprazer.

O sublime origina-se apenas na natureza; não há como encontrá-lo em objetos, pois ele nasce em nossas ideias, como uma disposição da alma diante do absolutamente grande da natureza. Nasce, segundo o autor, do simultâneo reconhecimento do absolutamente grande que nos transcende/eleva & da superioridade da destinação racional das nossas faculdades cognitivas, que nos permite ver a natureza como pequena frente à nossa razão.

A superioridade racional das nossas faculdades cognitivas nos leva a perceber como pequeno aquilo que a natureza oferece de grande para nós porque podemos domá-la, compreendê-la, apesar de sua grandeza. É quando nossa natureza física é superada e nossa natureza racional se mostra superior.

O domínio restrito na natureza passa a ser minado com a técnica: ela surge como um novo absolutamente grande, uma nova ameaça mortal, não apenas no plano da sensibilidade e da percepção (como já o era a natureza), mas agora também no plano da mente, pois a técnica pode nos expropriar e oprimir em ambos os sentidos; é nociva aos interesses dos sentidos e da razão.

Os argumentos apresentados até aqui são condizentes com o pensamento Kantiano do sublime. A contribuição de Mario Costa reside no conceito de sublime tecnológico.

O autor argumenta que com a evolução tecnológica a própria possibilidade do sublime parece definhar, pois passamos a ter mais domínio sobre a natureza, que não nos assombra mais por sua potência, que agora podemos aferir por meios técnicos, mas, ao mesmo tempo, parece surgir uma nova forma de sublime: o sublime tecnológico. Um sublime que pode ser finalmente objetivado, que pode ser ofertado à contemplação (pois estava apenas presente nas nossas ideias em confronto com a natureza), que pode ser apreciado social e planificadamente (o que era antes individualista e casual) e que pode ser produzido e consumido/apreciado como uma nova forma de composição do espírito. Portanto, o sublime, até então exclusivo à natureza, passa a pertencer potencialmente também à arte, a partir da técnica.

Referências:

COSTA, Mario. O sublime tecnológico. São Paulo: Experimento, 1995.

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