Dubois e a informática como uma máquina de imagem

Em seu texto “Máquinas de imagens: uma questão de linha geral”, Philippe Dubois procura ressaltar o fato de que o fazer artístico nunca esteve desassociado da técnica, pois toda imagem requer uma tecnologia — compreendida aqui como o techné grego, que designava o procedimento de fabricação de objetos belos ou utilitários, sejam eles materiais, como um quadro ou uma escultura, ou intelectuais, como um poema ou uma peça.

Para desenvolver seu argumento, o autor analisa quatro “máquinas de imagens” (cronologicamente dispostas: a fotografia, o cinema, a TV e a informática), assinalando três eixos de análise que perpassam o discurso amnésico da retórica do novo que acompanha toda inovação, permitindo ver a problemática estética de que cada uma dessas máquinas de imagens trazem no seu bojo.

Nessa sua proposta de dialética dos polos antagônicos, Dubois se dispõe a observar como se situam as oposições maquinismo-humanismo, semelhança-dessemelhança e materialidade-imaterialidade na mediação da técnica com a obra de arte.

Maquinismo-humanismo

Neste primeiro eixo reside a tentativa de analisar como a máquina opera na mediação entre o homem e o fazer artístico em si, ou seja, como o processo de criação de imagens é modificado pelo intermédio da máquina? Ela pode atuar guiando do olhar, constituindo a obra, ou permitindo a fruição da obra.

Se, até o advento da imagem informática, os demais sistemas pressupunham a existência de um real exterior e prévio, agora a imagem prescinde deste real e dos instrumentos de captação e reprodução, pois ela própria pode produzir um real. Vemos aqui a abandono da ideia de representação do existente em direção à criação de uma realidade própria a esse novo meio, uma realidade criada por algoritmos e que habita em memórias rígidas e códigos de execução.

A inscrição é feita pela máquina: ela prescinde da ação do homem e também de um real anterior, como na proposta artística Rising Colorspace, de Julian Adenauer e Michael Haas, que, descrita como um “trabalho em progresso”, dispõe um robô para explorar o ambiente vertical em que se encontra criando padrões de desenho com giz de cera.

Importante ressaltar que nessa sua análie das transformações observadas no eixo maquinismo-humanismo não conduzem para uma crescente maquinização em função do tempo, mas, por outro lado, aponta uma oscilação entre os dois pólos, uma variação elástica, concluindo que o estético e o tecnológico podem se encontrar, pois não são mutualmente excludentes.

Semelhança-dessemelhança

Neste segundo eixo, Dubois sugere que pensemos como são as relações de mímese, pois, ao contrário do que podemos pensar à primeira vista, o encadeamento tecnológico não leva a um crescente grau de analogia entre real e representado, pois a dimensão mimética é uma mera questão estética. No eixo da semelhança-dessemelhança pode residir a questão da representação e do signo indiciário na obra. Na imagem informática, a máquina deixa de reproduzir para criar seu próprio real, sendo assim, pode dispensar representação e referente – pois não é mais a imagem que imita o mundo, mas o real que passa a se assemelhar à imagem. De acordo com o autor, essas imagens miméticas esforçam-se para reproduzir imagens já disponíveis, apostando na semelhança, como é a proposta do Treachery of the Sanctuary do videoartista Chris Milk, que parte do input real (o interator) para gerar uma mímese do real (um animal qualquer), mas que, entretanto, não depende da existência, de fato deste signo indicial:

Materialidade-imaterialidade

Com a desmaterialização da arte informática, as obras se tornam cada vez mais virtuais, menos táteis, sugerindo que o processo de desmaterialização chegou ao extremo, questionando a fisicalidade, apresentando-nos, no lugar de uma criação subjetiva, o resultado de algoritmos, abstrações resultantes de cálculos matemáticos.

A projeção imersiva “Dear World… Yours, Cambridge”, de Miguel Chevalier gera em tempo real inúmeras imagens de diferentes universos gráficos representativos do universo acadêmico de Cambridge. A exposição, realizada na capela de King’s College utiliza sua própria linguagem digital para interpretar e ilustrar os âmbitos de pesquisa.

Referência:

DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, godard. Editora Cosac Naify, 2004.

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