Culturas Fronteiriças, Ilusões Miméticas

Culturas Fronteiriças, Ilusões Miméticas [Aula 7]

A partir do ensaio crítico de José Bragança de Miranda[1], doutor em Comunicação Social, é possível pensar a obra de arte para além dos cânones do modernismo, passando a entendê-la como um elemento imbricado na vida cotidiana, como bem antecipou o vanguardista Marcel Duchamp, a despeito da leitura benjaminiana de perda da aura.  Dentro desta perspectiva, sobretudo com as novas possibilidades da tecnologia digital, as balizas entre arte e vida ficam ainda mais nebulosas, em um momento em que uma deixa de imitar a outra, dispensando o exercício de representação em prol de um esforço de criação de mundo. Nesse sentido, levando em consideração a autonomia das máquinas e o comprometimento total entre arte e tecnologia, a interactividade hoje só é possível ser pensada no limite do código, ou seja, é preciso entrar na máquina, locomover-se dentro dela e até mesmo subvertê-la para que se consiga produzir objetos de significação no intercâmbio homem/máquina. Entretanto, mesmo nesses casos, estamos refém de uma ilusão estética, pautada pelo fetiche da criação do real.

Abordando questão semelhante, e percorrendo um caminho similar, Arlindo Machado[2], pesquisador em Comunicação e Semiótica na PUC-SP, trata dos conceitos de “divergência” e “convergência”. Partindo do pensamento divergente, que é aquele relativo a um momento de forte apelo estruturalista, entre os anos de 1950 e 1980, em que os meios eram pensados em função de suas especificidades e o intercâmbio de experiência entre fotografia, cinema, televisão e vídeo eram bastante superficiais, Machado estabelece com a atualidade uma noção pós-estruturalista, entendendo o pensamento convergente como o processo de hibridização dos meios que, possibilitado pela tecnologia, estabelece um contexto politópico, em que tempo e espaço se sobrepõem.

duchamp

Dentro desta mesma assertiva, Priscila Arantes[3], pesquisadora em linguagem da arte, utiliza o conceito de “interestética” justamente para pensar a estética contemporânea, não apenas como a estética da hibridização, mas também da interface. Nesse sentido, tendo em vista o processo de criação artística, a máquina agora traspassa o homem com suas interfaces, subtraindo a ideia de objeto acabado por uma criação em fluxo. Ou seja, assim como atesta Machado, não se trata aqui de imitar a realidade, mas de uma nova capacidade de comunicação e interactividade.

Em resumo, o que todos esses autores estão dizendo, e aqui me aproprio do pensamento de Nestor Canclini[4], é que o sujeito contemporâneo, cada vez mais, fragmenta-se em processos difíceis de totalizar. As culturas, em tempos tecnológicos, já não se agrupam mais de maneira fixa e estável, seja no espaço geográfico, social ou estético. Os conceitos de mundo se fragilizam ao passo que todas as experiências tornam-se de fronteira, só se desenvolvendo em relação a outras culturas, outros dispositivos.

REFERÊNCIAS

[1] MIRANDA, José Bragança de. Da interactividade. Crítica da nova mimesis tecnológica In: Cláudia Giannetti (Ed.). Ars Telematica – Telecomunicação, Internet e Ciberspaço. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 1998.

[2] MACHADO, Arlindo. Arte e Mídia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.

[3] ARANTES, Priscila. Arte e mídia: perspectivas da estética digital. São Paulo: Editora Senac, 2005.

[4] CANCLINI, Nestor García. Culturas Híbridas. São Paulo, EDUSP, 3ª ed., 2000.

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