As novas formas de interseção

Qual é a relação que pode ser estabelecida entre os textos de Arlindo Machado (Arte e Mídia), o conceito de Interestética de Priscila Arantes e a reflexão de mimesis tecnológica e interatividade de Bragança de Miranda?

No tópico “Convergência e divergência das artes e dos meios”, que integra o livro Arte e Mídia (2012), Arlindo Machado afirma que a hibridização e a convergência das áreas são processos de interseção, transação e diálogo. Através do exemplo dos círculos tangentes, Machado (2012) pontua que “Na prática é impossível delimitar com exatidão o campo abrangido por um meio de comunicação ou uma forma de cultura, pois suas bordas são imprecisas e se confundem com outros campos” (2012, p.58). Nesse exemplo, os meios seriam representados por círculos que apresentam em seu interior os núcleos duros (especificidade) e bordas compostas por zonas de interseção.  Porém, o autor destaca que esses os núcleos não são estáveis, ou seja, eles não devem ser pensados como se fossem círculos estáticos, pois estão em constante expansão.  As bordas também se ampliam constantemente fazendo com que as interseções entre os meios não sejam tão nítidas. Se nos anos 1950 e 1980 os teóricos focavam suas pesquisas na especificidade dos meios, hoje estes são compostos por núcleos e bordas em constante interseção. Este processo de convergência faz com que os conceitos e as especificidades dos meios se tornem cada vez mais abrangentes e híbridos.

Os círculos tangentes que Machado (2012) usa para discutir a convergência e divergência das artes e dos meios.

Os círculos tangentes que Machado (2012) usa para discutir a convergência das artes e dos meios.

Já o conceito de Interestética, cunhado por Priscila Arantes no livro “@rte e Mídia: Perspectivas da Estética Digital” (2012), tem como background as manifestações artísticas que lidam com os dispositivos tecnológicos midiáticos. A autora afirma que “[…] o prefixo inter indica não somente uma visão de estética híbrida, que se situa aquém e além de uma posição que postula uma fronteira rígida entre as coisas, mas também a ideia de interface” (2012, p.169). Nesse contexto, as formas de estetização de interface que vão além dos limites do mouse e do teclado. Como o prefixo inter se refere à ideia de ‘entre as coisas’, a Interestética é caracteriza pela ideia de fronteiras compartilhadas em que as formas de arte se misturam e hibridizam constantemente. Desta forma, “A interestética, portanto, deve ser vista como uma estética híbrida que dilui os limites trazendo para seu interior inter-relações e interconexões com outras áreas do saber. É uma estética que rompe com qualquer ideia de fronteira rígida entre perto e longe , artificial e natural, real e virtual” (2012, p.173).

É a partir das discussões sobre a Vanguarda, que Bragança de Miranda (1998) apresenta sua reflexão sobre a mimesis tecnológica e a interatividade. O autor destaca que a vanguarda rompeu com os modelos pré-estabelecidos, se distanciando de qualquer tipo de dicotomia e bipolaridade do mundo. Neste sentido, as artes interativas dariam continuidade a este movimento. Conforme aponta Bragança de Miranda (1998, p. 182) “Tudo indica que as artes interativas, que recorrem intensivamente às novas tecnologias digitais , vêem na continuação da vanguarda, não pelos aspectos disruptivos desta, mas pela tendência a visar esteticamente o mundo, a produzi-lo tecnicamente” (p. 182). Isto é, se no vanguardismo quebram-se todos os cânones da arte – e esta começa a imbricar-se com a vida – as artes interativas potencializariam este viés. Uma vez que as manifestações artísticas digitais não apenas representam o mundo, mais o criam a partir da mesma base binária. Nesse sentido, a arte digital deixa de polarizar o mundo e passa fundir arte e vida.  Segundo o autor, “A negatividade desaparece numa positividade feliz, que o pós-modernismo expressa no convencimento de que chegaram ao fim as divisões irreconciliáveis da modernidade, entre sujeito e objeto, entre arte e vida, entre atividade e passividade, entre presente e ausente, e todas as outras instauradas pela metafísica e a sua peculiar hierarquização do mundo” (1998, p. 182). Já a reflexão de mimesis tecnológica é pautada pela capacidade de representação e de fusão total da relação entre homem e máquina. Neste contexto, a mente se tornaria uma interface criando uma total hibridização.

A relação que pode ser estabelecida entre os três textos é todos destacam a questão da interseção, transação e do diálogo entre os meios e as formas de cultura. Seja através da convergência midiática, do conceito de interestética ou da mimesis tecnológica e da interatividade os autores se distanciam das fronteiras rígidas, e muitas vezes opostas, entre os campos e se aproximam das fronteiras compartilhadas. Desta forma, independente do objeto de pesquisa Machado (2012), Arantes (2012) e Bragança de Miranda (1998) pontuam a questão da hibridização, em que os limites as áreas, antes tão nítidos e demarcados, se dissolvem.

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