Bragança de Miranda, Machado e Arantes – Estudo dirigido

Questão: Qual relação pode ser estabelecida entre os textos de Arlindo Machado (Arte e Mídia), o conceito de Interestética de Priscila Arantes e a reflexão de mimesis tecnológica e interatividade de Bragança de Miranda?

O conceito de interestética cunhado por Priscila Arantes se insere no contexto da estética contemporânea, habitada por dispositivos tecnológicos e fronteiras dissolvidas com diversas áreas do saber. A autora argumenta que propostas estéticas nas mídias digitais estão interfaceadas com outras áreas, e que, portanto, a produção artística promove parcerias que une esforços de artistas, programadores e engenheiros num objetivo comum. Assim, podemos questionar as fronteiras entre perto/longe, natural/artificial e outras balizas estabelecidas historicamente pela arte. Aqui, o prefixo inter não denomina apenas a hibridização, nem uma ideia de um algo que está entre, mas denomina um fluxo informacional ao mesmo tempo em que indica uma tendência artística de exploração da interface como forma de estetização (seja trabalhando a estrutura e navegação, seja desenvolvendo interfaces que permitam uma experiência mais sensória).

Aqui, a obra de arte “não é uma representação imitativa da realidade, mas uma capacidade comunicativa, de fluxos de informação entre domínios”, uma arte que que não reproduz a realidade, não se propõe à mímese, mas assumir um papel de reformulação dessa realidade por meio de sua capacidade de interferir na rotina, na práxis cotidiana, sugerindo novas condutas, novas sensibilidades estéticas.

Segundo Bragança de Miranda tudo indica que as artes interativas dariam continuidade aos movimentos artísticos vanguardistas: se estes procuram abolir as barreiras que distanciam a arte da vida, as artes interativas intensificam esse ideal, “fazendo entrar a vida na arte” e gerando um efeito de ilusão estética em que o real e virtual se imbricam, formando uma realidade perfeita onde “construir a arte é construir a própria realidade”, de forma que torna-se impossível apontar delimitações entre o real e a arte.

Segundo o autor, as artes interativas criam um espaço novo, provido de consciência técnica, que, na mimesis tecnológica — invertendo o paradigma de polarização natural/artificial — provocam uma “renaturalização da experiência”, como as interfaces de respostas em tempo real. A questão central da interface em Miranda parece estar relacionada à noção de que estas, centradas nos sentidos e sensores, aprisionam a arte numa função de replicação demasiadamente humana, prejudicando “a arte e a carne”, como o paradigma da Realidade Virtual, que exige da arte a representação idêntica da percepção, quando ela é “visibilidade determinada pela invisibilidade (…), presença determinada pela ausência”.

No decorrer do livro Arte e Mídia, Arlindo Machado nos faz perceber que o universo da cultura se mostra hoje muito mais hibridizado do que em qualquer outro momento histórico, o que transforma a contemplação artística de diversas maneiras, migrando a arte do enclausuramento do museu para o espaço público e fragmentado da Internet, por exemplo, onde pode ser contemplada por massas gigantesca e amorfa. Para o autor, essas mudanças na produção e na fruição da obra de arte muda seu estatuto perante a sociedade. Dada a sua análise ampla desta transformação artística que decorre do último século, entendemos a arte como um produto dos meios, dos recursos e das demandas de sua época que precisam atuar nos modelos econômicos e institucionais vigentes, por isso não vemos em Arlindo, Miranda ou Arantes a demonização da técnica ou a negação da associação da arte com interfaces técnicas; pelo contrário, ambos os autores trabalham a arte contemporânea a partir de suas hibridizações tecnológicas, refletindo acerca das mudanças que trazem tanto no fazer quando no fruir da arte e desviando de conceitos redutores e fronteiras delimitadas entre os campos imbricados na arte moderna.

Referências:

ARANTES, Priscila. Arte e mídia: perspectivas da estética digital. São Paulo: Editora Senac, 2005.

MACHADO, Arlindo. Arte e Mídia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.

MIRANDA, José Bragança de. Da interactividade. Crítica da nova mimesis tecnológica In: Cláudia Giannetti (Ed.). Ars Telematica – Telecomunicação, Internet e Ciberspaço. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 1998.

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