O novo estatuto do corpo [ Daiana Sigiliano e Luiz Otávio Vieira]

As discussões apresentadas por Lúcia Santaella (2003) e Laymert Garcia dos Santos (2005) se distanciam da contraposição entre Humano e Máquina iniciada no Iluminismo pelo paradigma técnico-cientifico entre cultura e natureza. Isto é, para os autores vivemos um novo estatuto do corpo humano, um corpo Biocibernético que vai além das teorias que enxergavam a máquina como servo ou como senhor. A compreensão do atual ecossistema de conectividade, a forma como este afeta o ethos contemporâneo e a nossa relação com a tecnologia foi antecipada na obra de McLuhan. Segundo o canadense todos os meios técnicos são extensões do corpo, “A necessidade de amplificar a capacidade humana para lidar com vários ambientes dá lugar a essas extensões tanto de ferramentas quanto de mobiliário. Essa amplificação de nossa capacidade, espécie de deificação do homem, eu a defino como tecnologia” (McLUHAN, 2005, p. 90).

É a partir desta concepção que o corpo híbrido entre o orgânico e o maquínico descrito por Santaella (2003) e dos Santos (2005) emerge. Um corpo em constante sinergia e imbricação com a máquina, e que por isso se afasta das dialéticas do Iluminismo e da Filosofia Autocrática. Conforme aponta dos Santos (2005, p.66), “[…] pensar a questão em termos de oposição é muito ruim: ou se antropomorfiza a máquina, ou se mecaniza o humano”. Para os autores as descobertas científicas e as invenções tecnológicas dão início a uma nova Era: a do pós-humano. Todas essas transformações representam um salto antropológico que afeta não só em sua estrutura do corpo humano, mas a concepção que temos de nós mesmos.

Buscando mensurar os impactos sociais da tecnologia e tendo o debate em relação à politização da tecnociência como caráter norteador de seus estudos, Laymerte Garcia dos Santos (2005), desconstrói a noção iluminista do humanismo, sugerindo uma crise do humano diante da maquinação. Apropriando-se de duas perspectivas de Hermínio Martins, sociólogo português, a da singularidade e da transformação biotecnológica, Laymert pavimenta o caminho para uma terceira via de pensamento que nos ajuda a delinear a questão do pós-humano.

Na singularidade o humanismo estaria obsoleto através da necessidade de potencializar o organismo com a incorporação de próteses ou adaptações artificiais, em uma integração entre tecido orgânico e máquina que Lúcia Santaella (2003) traduz no avanço do campo da protética  – corpo protético – capaz de criar membros mecânicos controlados por impulsos nervosos, órgãos artificiais e implantes dentários, dentre outros híbridos.

Por outro lado, a transformação biotecnológica segue uma postura paralela, enxergando não uma superação do humano, mas sua transformação genética, através de uma “eugenia positiva” que desencadearia uma segunda linha de evolução do humano, definido por Santaella (2003) como “corpo molecular”, que engendra desde experiências transgênicas até as técnicas de clonagem.

No entanto, para Laymert (2005), uma terceira via, que promova o diálogo entre as contribuições de Martins, teria o poder de abarcar com maior precisão a questão do pós-humano. Nesse sentido, a perspectiva do transumano não sugere a obsolescência do humanismo, entendendo o homem-maquinado como aquele que está além do humano, sem qualquer lastro na preservação da essência iluminista.

Trazendo a discussão para o campo da fabulação, o filme “Gattaca – Experiência Genética” (1997), dirigido por Andrew Niccol, discute as questões éticas envolvendo o pós-humano e colocando em cheque a questão da “eugenia positiva”, ao ambientar a trama em um futuro no qual os indivíduos são escolhidos geneticamente em laboratórios, sendo as pessoas biologicamente concebidas consideradas inválidas. Assista o trailer:

Referência:

McLUHAN, Marshall. McLuhan por McLuhan: conferências e entrevistas. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

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