As novas formas de ver [O papel do sujeito espectador]

Em “O Sujeito na Tela – Modos de enunciação no cinema e no ciberespaço”, Arlindo Machado (2007) destaca três momentos do desenvolvimento técnico que ocasionaram o surgimento de um novo tipo de observador. Segundo o autor, a câmera obscura, o estereoscópio e o ambiente digital marcaram a emersão de novas figuras da subjetividade.

O primeiro momento é pautado pela câmera obscura, nesse aparato óptico temos a separação física entre o observador e o objeto de visão. Isto é, o efeito de subjetividade provém de uma operação de individualização. Conforme pontua Machado (2007, p.176), “O observador é isolado do mundo graças a um dispositivo que o enclausurava num cubículo escuro e o deixava diante da presença exclusiva da imagem”. A própria arquitetura e modo de funcionamento do dispositivo técnico impede a participação do observador na representação. Desta forma, na câmera obscura é marcada pela descorporificação  da visão, pela separação do objeto e do observador.

A câmera obscura foi um paradigma do modo de visualização do século XV ao XVIII.

A câmera obscura foi um paradigma do modo de visualização do século XV ao XVIII.

Já no século XIX, a visão se distancia das relações fixas e estáveis da câmera obscura. A chegada do estereoscópio altera o papel do sujeito como observador.  Considerado por Crary (1992) a mais importante forma de iconografia do século XIX, o estereoscópio é um dispositivo que se encaixa no rosto, à altura dos olhos como se fosse uma prótese. O aparelho produz uma visão binocular e tridimensional, ou seja, ele altera o estatuto do observador. Conforme pontua Machado (2007, p.179), “A imagem multiplanar é o resultado de uma fusão operada no cérebro do observador de duas imagens quase semelhantes, mas vistas de ângulos ligeiramente diferentes, essa divergência do ângulo de visão é interpretada pelo cérebro como efeito de profundidade, aproxima de forma radical o observador e o objeto de visão ao contrário da separação física da câmera obscura”.  Neste sentido, o corpo do observador torna-se um componente das novas máquinas, em que não há mediação entre o olho e a imagem, pelo contrário a imagem é formada no cérebro do sujeito.

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O estereoscópio marca o reposicionamento do observador.

Essas novas figuras da subjetividade que surgem com o reposicionamento do observador no estereoscópio atingem seu auge no ambiente digital. A capacidade de simulação do computador como metameio, além do processo de visualização e de agenciamento presentes nos ambientes imersivos fazem com que o sujeito deixe de apenas de  observar e passe a participar. Os ecossistemas arquitetados a partir de bases binárias ligam o sujeito aos ambientes virtuais estabelecendo novos níveis de protagonismo.

Nesse sentido, podemos observar a mudança nas formas de ‘ver’ do sujeito. Ou seja, na câmera obscura temos um sujeito isolado, pois o aparato separa o observador do objeto de visão. Já o estereoscópio marca a reorganização do olhar, em que a imagem é formada no cérebro do observador, estabelecendo uma aproximação. Por fim, no ambiente digital o observador torna-se participante e é capaz de agenciar os ecossistemas imersivos.

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