Do estatuto do observador frente à transformação tecnológica

Da síntese que Arlindo Machado faz das propostas de Jonathan Crary em “Techiniques of the observer” podemos extrair três ferramentas técnicas de imagens que mudam estatuto do observador perante o que é observado: a câmera obscura, o estereoscópio e a imagem gerada pelo computador.

A câmera obscura é um aparelho óptico que consiste de uma caixa com um pequeno orifício para passagem de luz, que irá atingir uma superfície interna, onde a imagem observada é projetada, de forma invertida.

Neste aparelho, que esteve na base da invenção da fotografia, o observador é isolado do mundo, individualizado numa operação que proporciona uma forma de subjetividade que o faz contemplar, exclusivamente, a imagem. Aqui, o ato de ver é separado do corpo físico do observador (porque elaboração física do dispositivo impede que o observador possa fazer parte da representação). O observador, portanto, se descorporaliza. Ao afastar o observador daquilo que é observado, a câmera obscura media a relação do sujeito com o exterior observado.

camera_obscura

O estereoscópio é um aparelho lúdico do início do século XIX que proporciona uma ilusão de tridimensionalidade através do uso de duas imagens quase semelhantes, salvo que visto por ângulos ligeiramente diferentes. Este instrumento gera uma forma tridimensional de imagem que é diferente da perspectiva na pintura e da planificação na imagem fotográfica, porque a imagem estereoscópica é formada no cérebro do observador através de uma ilusão de sobreposição da duas imagens.

De certa forma, foi a maneira dominante de difusão e consumo da fotografia no século XIX e Crary a considera a forma de iconografia mais importante deste mesmo século.

Com o surgimento do estereoscópio, tem-se também a emergência de uma nova espécie de observador, que agora precisa estar encerrado num espaço e numa codificação/regulamentação imposta pelo objeto, funcionando como uma prótese da visão que solicita ao observador que opere em conjunto com suas partes.

Portanto o observador é desenraizado da posição física encarnada na câmera obscura, mas passa agora a agir numa função de manejar o aparelho. Para Crary, esta imagem estereoscópica tem algo de obsceno porque é íntima, se aproxima radicalmente da visão (o funcionamento da ilusão depende da proximidade entre olho e imagem).

stereoscope

A implantação de espaços artificiais, os computadores, videogames e outras formas de operação de imagem matemática, diferentes das projeções da câmera obscura e do estereoscópio, rompimento com o conceito de um observador confinado num espaço dado. Nesses sistemas digitais, isto não é uma imposição, pois as imagens digitais infinitamente plásticas, podem ser manipuladas ao infinito através da interação.

Esta imagem gerada de forma digital já não tem relação com aquelas forjadas pelos meios tradicionais, que resulta da ação física de um criador ou de uma conexão indicial com a realidade. Essas imagens são matrizes matemáticas que são transformadas indefinidamente através da ação do interator, pois são modeladas através de códigos, algoritmos.

Observamos, portanto, que as mudanças nas técnicas de reprodução, mas principalmente, de fruição, trazem consigo diferentes formas de subjetividade: se na câmera obscura exige-se do sujeito espectador o afastamento daquilo que observa, no esterescópio, o sujeito observador precisa se aproximar até o limite da visão, enquanto que na imagem artificial esta imposição é posta de lado, conferindo liberdade ao sujeito interator.

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