Prazeres de Um Sujeito Imerso

homem mosca

Ao discutir o agenciamento do observador, Arlindo Machado, define o conceito como um efeito de assujeitamento do espectador a partir da mudança de estatuto no modo em que os enunciados midiáticos passam a ser decodificados. Nesse sentido, a consolidação do campo audiovisual funcionaria como o advento flagrante dessa nova maneira de pensar o sujeito, tendo em vista o desgaste subjetivo do “narrador” e a ênfase no prazer imersivo da audiência. No entanto, só é possível entender essa crise das teorias enunciativas recorrendo às mudanças paradigmáticas ao longo do tempo.

Em um primeiro momento, marcado pelos valores humanistas do Renascimento, a câmera obscura introduz a individualização do sujeito, inaugurando a noção de simulação da realidade ao projetar em um ambiente hermeticamente calculado a imagem invertida de objetos do mundo externo. No entanto, ainda assim, o papel do observador permanece restrito à contemplação visual, como um sujeito “descorporalizado” que imerge em um mundo incapaz de incorporá-lo.

Hugo Cabret (2011): Lumière e novas perspectivas para o sujeito

Hugo Cabret (2011): Lumière e novas perspectivas para o sujeito

Essa perspectiva somente é alterada a partir do século XIX, com o surgimento de dispositivos que alteram o modo pelo qual se processa a interação. A partir deste momento, a construção imagética, a formulação de novos universos, se configura através da participação corporificada do sujeito. O corpo humano não mais apenas observa, transmuta-se em uma engrenagem maquínica. Nesse sentido, o estereoscópio com sua visão binocular tridimensional é o aparelho sintomático deste período, ao envolver tanto um esforço visual quanto corporal na codificação imersiva. Era o esboço do pós-humanismo.

A perspectiva estereoscópica é retomada um século mais tarde na consolidação da linguagem binária. O computador e o digital elevam ao limite a simbiose entre homem e máquina, através da noção de um observador plugado em um universo virtual cuja orientação, apesar de se desenvolver em uma exploração por vontade própria, ainda depende da codificação por parte de um sujeito técnico. É essa reconfiguração que irá, de uma vez por todas, romper com o antropocentrismo iluminista, liberando o homem para viver sem culpa os prazeres de sua imersão tecnológica.

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