LUCK: Fandom às avessas

 Cartaz Divulgação - Luck

Ao definirem o conceito de Fandom como um grupo de consumidores de mídia engajados no alastramento de conteúdo através de redes de fãs, Henry jenkins, Joshua Green e Sam Ford reforçam a ideia de “inteligência coletiva” que, amparada no alcance da comunicação online, retira o fã da marginalidade e o coloca em pé de igualdade com os produtores de conteúdo, na medida em que agora eles passam também a negociar os padrões de consumo. Conforme esclarece os autores (2014, p. 167), “(…) a decisão sobre qual conteúdo televisivo assistir e onde assistir é formatada pelas normas que surgem de associações sociais como as organizadas em torno de comunidades de fãs”.

luck02

Vários exemplos sobre o engajamento transmidiático dessas comunidades de fãs são pontuados ao longo do livro “Cultura da Conexão” (2014). No entanto, esses exemplos são pinçados, na maioria das vezes, pelo viés da permanência, ou seja, os fãs operariam no sentido de remodelar ou afirmar o conteúdo com um propósito claro: garantir a continuidade do produto no broadcasting. Dentre os cases citados, destacam-se as séries norte-americanas Jericho (2006) e Chuck (2008) que, depois de serem canceladas pelas emissoras, acabaram ganhando novas temporadas em virtude de ações propagáveis promovida pelos fãs.

David Milch, Dustin Hoffman e Michael Mann na estréia de Luck, em Los Angeles

David Milch, Dustin Hoffman e Michael Mann na estréia de Luck, em Los Angeles

Nesse sentido, não é difícil pensar no oposto: comunidades socialmente organizadas agindo em prol do cancelamento de um produto midiático. Esse é o caso de outra série norte-americana, Luck (2012). Produzida por David Milch e Michael Mann e exibida pela HBO, a emissora perdeu o controle criativo do seu produto a partir do momento em que o público tomou conhecimento de duas mortes de cavalos durante a gravação da primeira temporada. A gota d’água veio com o anúncio de uma terceira morte que, imediatamente, desencadeou a ação do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), sociedade engajada na proteção dos animais.

Cena - Luck

Nesse caso o PETA assume um posicionamento típico de Fandom, pois somente através de sua ação inicial, ao registrar queixa na polícia de Arcadia e engajar a sociedade protetora dos animais de Pasadena, é que o protesto se alastrou pelos demais grupos sociais, conseguindo a propagação suficiente para o cancelamento. Logrado o intento, eis a declaração do PETA: sabendo que cavalos velhos, incapazes e drogados eram forçados a correr para esta série, o PETA está contente que a HBO tenha decidido finalmente cancelar a produção. Agradecemos às pessoas que se recusaram a deixar as mortes desses cavalos passarem despercebidas. Se Milch, Mann e a HBO decidirem retomar a série, o PETA voltará a solicitar, como vem fazendo desde o início, que os produtores utilizem imagens de arquivos de corridas ao invés de colocar em perigo as vidas de cavalos para fins de entretenimento.

A série, estrelada por Dustin Hoffman e Nick Nolte, rendeu na estreia uma audiência de mais de 1.1 milhões de telespectadores ligados ao vivo. No entanto, a agitação gerada com a morte dos animais fez com que esse público imediatamente fosse reduzido para a média de 625 mil telespectadores ao vivo. Em tempo, a segunda temporada já estava em produção, com alguns episódios gravados, o que fez com que o cancelamento representasse uma perda de 35 milhões de dólares para a HBO.

TRAILER

 

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