BBB14 e o fandom “Clanessa”

Em “Cultura da Conexão”, Jenkins, Green e Ford trabalham com a ideia do fandom – conceito que trata daqueles fãs de mídia mais engajados, que se preocupam em agir quando aquele produto é de seu gosto ou não. Neste mesmo livro, encontramos exemplos de diversas séries de TV americana que mostram ações desse fãs alterando a antiga relação entre consumidores e produtores. Aqui no Brasil, em 2014, fãs de participantes do reality show Big Brother Brasil mostraram sua força ao conseguir levar esses participantes a vitória.
O Big Brother Brasil é exibido há mais de uma década no país e já acumulou grandes números em audiência. O que se percebe agora é que a cada ano a audiência vem caindo drasticamente na TV. Mesmo assim ela ainda é maior que muitas outras atrações de outros canais abertos. De acordo com matéria do site Correio Brasiliense, o BBB14 teve a audiência mais baixa de todos os programas, alcançando 24 pontos, a edição de 2005 teve o maior número até então com 69,7% de participação. Entretanto, mesmo com essa crise, a matéria ainda destaca a renovação do reality até 2018. Mas por que renovar um programa que a cada ano que passa enfrenta queda de audiência? Por que a Rede Globo ainda aposta em um formato tão desgastado?

Estamos vivendo um período de audiência simultaneamente fragmentada e homogênea, em que a internet é também uma grande reprodutora do conteúdo televisivo. Assim, até o dia 8/4/2015, essa mesma edição do BBB havia sido citada em 34,3 milhões de postagens na internet, mostrando a força do programa existente nesse novo meio. Se pensarmos que o Big Brother Brasil começou a ser exibido em 2001 e o número de pessoas com acesso à internet por domicilio no Brasil era de 11.106.000, em 2014 ano da exibição do programa de pior audiência, o número era de 87.938.000. Isso mostra a necessidade de um novo olhar para a questão da audiência tradicional, que sofreu uma mudança durante esses anos de influência do aumento da disponibilização de banda larga assim como facilidade de acesso a notebooks e a aparelhos móveis como smartphones, no país.

A internet mudou a subcultura de fã a partir do momento em que concedeu para esses grupos acesso a seus programas preferidos, divulgação de fanfictions, comentários, jogos, formas de interação variada, a qualquer momento, de qualquer lugar, para qualquer pessoa. Dessa forma, ao analisarmos o BBB14, com sua pior audiência da história, podemos pensar que o tipo de audiência do programa mudou deu m grupo amplo de espectadores de massa – pensando a audiência tradicional dos meios de massa – para um nicho específico, que só assistia por participantes específicos e não pelo programa em si?

Essa mesma edição de 2014 pode ser exemplo dessa mudança pelo fato da grande movimentação causada pelas fãs de um casal formado por participantes dentro do programa. As participantes contavam com várias fanpages no Facebook, perfis no Twitter, fanfictions, clipes feitos com momentos dentro da casa, e outras diversas interações – a maioria ainda existe e tem alguma movimentação. O casal apelidado nas redes sociais por “Clanessa” durante os meses de exibição foi buscado no Google de forma crescente, até atingir seu ápice duas semanas depois do término do programa que aconteceu dia 1 de abril. Mesmo depois desse período, o termo “Clanessa” aparece ainda meses depois. Isso se pensarmos nas pesquisas apenas no Google. Dentro de sites de redes sociais como Facebook e Twitter, haviam diversas formas de manifestação dos fãs.

A fanpage que durante a exibição do BBB14 fez campanha para que Vanessa Mesquita e Clara Aguilar vencessem o programa mantinha as fãs em contato com acontecimentos do pay-per-view durante 24h através do rodizio entre as responsáveis pelas publicações, e também pelas fãs que comentavam, curtiam e compartilhavam as publicações, o que nos lembra o que Ivana Fechinne denomina como um “espaço-tempo sem duração social: o tempo é homogêneo, um eterno presente, um tempo sem “marcação”(sem horários), bem distante do tempo descontínuo e diferenciado do cotidiano”. Assim, os fãs tinham acesso sobre todos os acontecimentos da casa e sabiam sempre quando a edição novelizada da TV aberta era editada de forma a prejudicar oumesmo ignorar ações do casal. Nas festas, o boletim era realizado quase que de minuto a minuto.

Perceba que os fãs criaram um universo em torno das participantes e não do programa especificamente, mas era a partir de conhecimento prévio sobre o funcionamento, sobre as regras pré-fixadas que eles agiam. Dessa forma, nas votações importantes, como no paredão formado por Vanessa e Marcelo, o último antes da grande final e que Marcelo mostrava vitória diante das enquetes, eles faziam posts na fanpage pedindo foco para que a votação só se dirigisse para o programa e que não se perdessem votando em enquetes de sites, ação que foi fundamental para que o objetivo fosse concluído, como apontado pelos próprios administradores da fanpages em entrevista ao programa “Encontro com Fátima Bernardes”

O que é interessante pensar é que um dos pressupostos do programa é justamente que a audiência interaja no andamento e resultado através das votações que acontecem toda semana para eliminar um participante. Pensar que a audiência tenha poder para combinação de votos e provocar a vitória de um participante parece irreal pelo fato de todo histórico do programa. Antes apenas era necessário que pessoas dispersas geograficamente, com interesses e gostos opostos votassem na permanência de um mesmo participante por mero acaso, talvez. Agora é possível promover mutirões de votos. O Big Brother virou um jogo de estratégia não para quem está dentro da casa, e sim para quem vota do lado de fora.

Entrevista com participantes do fandom

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