Da cultura da conectividade no YouTube

Na introdução de seu livro “The culture of connectivity: A critical history of social media”, a autora holandesa José van Dijck adverte que cada olhadela na tela do computador é um pedido de reinterpretação das redes sociais e das interações online em geral, porque a cada momento surgem novas plataformas de mídias sociais, novas redes de interesse e novas formas de interação que tem inundado nossas vidas pessoais, profissionais e sociais.

Através da observação sistemática das plataformas de mídias digitais (englobando, neste caso sites de redes sociais e sites de conteúdo gerado por usuários), a autora percebe uma fragilidade nos atuais modelos de análise de mídia, que tendem a separar a interação do usuário com tecnologia da estrutura sócio-econômica organizacional. Isto, segundo a autora, é justificável pois é difícil sequer conceber o entrelaçamento dos dois níveis (tecnológico e organizacional) e a dinâmica entre microssistemas e ecossistemas numa única teoria abrangente.

Tem-se, então, a proposição de um novo modelo heurístico que, unindo conceitos da Teoria Ator-Rede (TAR) de Bruno Latour com a Teoria da Política Econômica de Manuel Castells, se dispõe a realizar o escrutínio das diversas plataformas de mídias sociais se esquivando das miopias encontradas nos outros contextos teóricos.

Este novo modelo heurístico opera em níveis diferentes: a partir da TAR, concentra-se nas redes construídas por pessoas e tecnologias, enquanto que a Política Econômica destaca a intraestrutura econômica, legal e política como condições para desenvolvimento das redes. Assim, favorecendo uma visão técnico-operativa por um lado e a compreensão por meio das estruturas econômicas, políticas e legais por outro lado, esta proposta aspira tornar-se um modelo totalizante de análise das plataformas de redes sociais.

Nos propomos aqui a observar o YouTube segundo algumas proposições do modelo de van Dijck.

youtube-icon

O YouTube é um site de compartilhamento de vídeos da gigante Google, o 3º site mais acessado em nível global, atrás apenas do Google.com e Facebook. É um site de conteúdo gerado pelo usuário na medida em que apoia a criatividade, enfatiza a atividade cultural da rede e promove trocas de conteúdo amador e profissional entre seus usuários. Iremos analisar a plataforma a partir de três conceitos propostos por Dijck: tecnologia, usuários e governo.

Tecnologia

A ação social de assistir a um vídeo, tecer comentários sobre ele e declarar sua aprovação é plenamente possibilitada pelo YouTube. A plataforma pode ser utilizada para envio de vídeos para serem reproduzidos via streaming, portanto esses são seus dados. Os metadados, nesta relação, residem nas informações elaboradas a respeito do vídeo, como sua tag e descrição. No caso dos usuários receptores, os dados são as informações que oferecem ao YouTube, como nome, idade, sexo, e os metadados são as informações que a plataforma recolhe a respeito do usuário, como os vídeos assistidos, o tempo de exibição, canais assinados, etc.

A gigante de computação Google é conhecida pela sofisticação de seus algoritmos, capazes de prever aquilo que o usuário procura mesmo através do seu input impreciso. No YouTube, os algoritmos atuam tanto no caso do usuário comum, sugerindo novos vídeos semelhantes àquele ao qual ele assistiu — é o caso também das playlists geradas automaticamente (YouTube Mix). É sabido, também, que através dos dados recolhidos pelo uso dos produtos Google, o YouTube é capaz de fornecer sugestões mais precisas e de maior interesse para seus usuários.

Os protocolos do YouTube impõem uma certa forma de padronização dos vídeos enviados, limitando-os na sua duração, no seu tamanho e restringindo-o quanto ao seu conteúdo. Por padrão o usuário é obrigado a inserir um título e categoria para o vídeo, bem como a interface, sugere que ele ofereça também outras informações complementares. Para os usuários comuns, os protocolos se traduzem na impossibilidade de comentar um vídeo sem estar registrado

Uso e usuários

O YouTube possui a estrutura para comportar não só um grande número de usuários e requisições, mas também grandes quantidades de conteúdo carregado para seus servidores.

É uma plataforma voltada para profissionais e amadores que não tem restrição de uso (a não ser conteúdos protegidos ou sensíveis que ficam resguardados a usuários registrados ou, se for o caso, a usuários registrados maiores de idade). Esses usuários podem ser meros receptores, interatores e produtores. Assim como em sites de redes sociais, o YouTube possibilita interações como o comentário e o Gostei/Não gostei, o que pode gerar desordens sociais, como discussões, comentários de ódio, spam, etc.

O YouTube vem realizando nos últimos anos diversas mudanças no aspecto monetário da plataforma, apresentando publicidade no início banners no decorrer dos vídeos. Esta alteração gerou diversas discussões polarizadas: se por um lado o usuário comum, mero receptor, se incomoda com a propaganda, o usuário que utiliza a plataforma de forma profissional, recebendo por estes anúncios em seus vídeos, pode ter reagido de forma diversa, enquanto um terceiro usuário que utilizava o YouTube para divulgar seus trabalhos pode ter, em vista dessa publicização da YouTube, migrado para outras plataformas semelhantes ou mesmo outras mídias.

Governo

Uma das principais questões do YouTube concernente ao governo está na maneira como a plataforma lida com as regras do mundo offline, em especial com as leis de direito do autor. Tendo em vista as inúmeras requisições de remoção de conteúdo que feriam direitos autorais no site, o YouTube passou a investir no desenvolvimento de um sistema capaz de identificar quando um conteúdo enviado para o YouTube possui obras protegidas, como música, partes de filme e mesmo outros vídeos do YouTube.

Com diversos vídeos bloqueados, a comunidade passou a reivindicar por mudanças nas regulações rígidas da plataforma. O YouTube, obviamente, não volta na sua decisão, mas oferece uma certa forma de flexibilização ao disponibilizar gratuitamente composições musicais de domínio público que poderiam ser utilizadas nas produções dos usuários, sem restrições.

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