Problematizações acerca do papel do autor – de Walter Benjamin à Stephanie Ribeiro

O início da década de 1930 foi turbulento para a Alemanha, o país passava pela ascensão do fascismo e, concomitantemente, a esquerda alemã é seccionada entre o Partido Social Democrata da Alemanha e o Partido Comunista Alemão. Em abril de 1934, Benjamin pronunciou a conferência “O autor como produtor” no instituto para o Estudo do fascismo em Paris. Na ocasião Benjamin deixa explícito seu alinhamento com a Revolução Soviética e seu engajamento na luta contra o fascismo alemão, também se preocupa em tecer elogios à renovação da dimensão literária da imprensa soviética em contraposição à imprensa burguesa ocidental, sendo a segunda alvo de duras críticas do autor.

Em “O Autor como Produtor” problematiza-se a autonomia do autor, para tal, Benjamin se ocupa em contrapor a tendência política à originalidade. Ele indaga: como a obra literária se situa dentro das relações de produção da época? Em sua análise materialista, Benjamin separa os “escritores progressistas” ou “operativos” dos “escritores burgueses de esquerda” ou “rotineiros”: os primeiros subvertem os meios de produção que são usados para explorar o proletariado; os segundos apenas se solidarizam com o proletariado no plano das ideias, levando em conta que o aparelho burguês é capaz de assimilar os conteúdos que lhe são antagônicos e os transformar em mercadorias lucrativas.

Para Benjamin, o intelectual se define pela posição que ocupa no processo produtivo, o autor deve atuar como produtor e se solidarizar com os proletários e os demais produtores. O exemplo de autor produtor citado por Benjamin é Brecht: o teatro épico brechtiano desloca os consumidores para a esfera da produção, oportunizando um confronto ao aparelho burguês.  Brecht se apropria do princípio da interrupção, popularizado por meio do cinema e do rádio, para combater as ilusões por parte do público e chamá-lo para a reflexão.  A interrupção, para Benjamin, exerce uma função organizadora:

“Ela imobiliza os acontecimentos e com isso obriga o espectador a tomar uma posição quanto à ação, e o ator, a tomar uma posição quanto ao seu papel”. (BENJAMIN, 1994, p. 133).

O artigo “Quando achamos que somos revolucionários sendo apenas privilegiados” de Stephanie Ribeiro retoma a discussão de Benjamin acerca do papel do autor. Ao discorrer sobre a postura de Gregório Duvivier (ator e escritor que possui uma coluna semanal na Folha de São Paulo) de postar uma fotografia em redes sociais com um cigarro de maconha na boca em protesto pela descriminalização das drogas, Ribeiro reflete: “Não seria a real transgressão do privilegiado assumir que ele não é o centro daquela discussão, e dar voz a quem realmente é impactada por ela? No caso de Gregório, usar o espaço onde ele posta foto com becks para falar que ‘Jovens negros estão vivendo uma situação de genocídio e encarceramento devido a não descriminalização das drogas, afinal a guerra às drogas nada mais é que uma guerra com endereço certo e com indivíduos definidos pela sua cor’”. Em seguida ela completa: “Não temos minorias falando sobre si mesmas, nesses espaços, ganhando credibilidade e inclusive os benefícios financeiros disso”.

duvivier

Ribeiro nos dá um exemplo de como o escritor burguês travestido de revolucionário opera para converter os meios de produção que o capital lhe põe ao alcance em lucrativos artigos de consumo. Duvivier, se solidariza com aqueles que diz defender apenas no plano das ideias, tendo em vista que não dá voz a aqueles que são mais prejudicados na luta contra as drogas, o povo negro.

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