A enunciação de um novo sujeito.

Em “O sujeito na tela: modos de enunciação no cinema e no ciberespaço”, temos contato com uma análise crítica de Arlindo Machado no tocante das reflexões, promovidas pelas artes, acerca do sujeito e do próprio fazer de algumas dessas (o cinema, mais especificamente). A obra parte dos impactos promovidos por recursos tecnológicos abundantes e que alteram a sociabilidade e a cultura humana. Consequentemente, as artes (sobretudo as visuais, no caso do livro) absorvem também esse movimento.

 

Machado divide a obra em duas partes: a primeira, uma análise de filmes clássicos em que apresenta diferentes espécies de sujeitos cinematográficos, baseados na teoria da enunciação cinematográfica; na segunda, o autor busca uma relação entre a crise dessas teorias com o surgimento de novas mídias digitais. Essa divisão se mostra muito interessante e didática, já que mostra que esses modos de enunciação privilegiavam o processo de recepção do filme e o modo como a posição, a subjetividade e os afetos do espectador eram pensados para o cinema. É bom que se leve em consideração o fato de que Machado trabalha com a ideia de que o cinema seria uma referência fundadora para todo o audiovisual (inclusive o ciberespaço), o que pode ser questionado por diversas vias.

No início dos anos 1980 o cenário que se percebe é uma hegemonia dos meios que o autor chamou de pós-cinematográficos e a partir daí, até mesmo o cinema começou a ser produzido pensando, muito mais, nesses outros modos de consumo (Videocassete, laserdisc, DVD, aparelho de Blue Ray, streaming…). É o que Machado chama de mudança de estatuto do dispositivo, do texto e do espectador, que surge justamente no momento em que a sala escura do cinema perde sua hegemonia, sua superioridade sobre outros meios. O autor aponta também para o recurso do zapping, ao falar do controle-remoto. Para ele, o dispositivo introduz uma descontinuidade através do movimento de troca de canais. Além disso, podemos pensar no recente recurso do “Ad skipping” que também vem a romper com a continuidade. Embora o nome indique apenas a possibilidade de pular os comerciais, precisamos entender também que esse recurso funciona para qualquer tipo de produção, de modo que o espectador pode adiantar e atrasar a produção à qual assiste de forma fácil e rápida.

De toda essa vasta gama de possibilidades, Machado identifica então que o novo sujeito que surge é um sujeito agenciador, que dialoga e interage com as imagens, sons e demais estímulos possíveis. Diferentemente da reação assustada dos espectadores ao primeiro filme exibido nos cinemas, correndo de um trem que vinha, supostamente, em sua direção, esse novo espectador não se assusta com aquilo que “sai” da tela, pelo contrário, interage com ele e produz novos significados.

 

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