As compreensões do pós-humano [Fram e Vanessa]

Em entrevista do grupo de pesquisa “Conhecimento, Tecnologia e Mercado”, o pensador brasileiro Laymert Garcia dos Santos distingue as três principais vertentes de compreensão do pós-humano em relação ao homem, à tecnologia e à sociedade.

O primeiro eixo de compreensão do pós humano o entende como uma superação do humano — que é literalmente suplantado pelas formas de vida superiores, como os robôs e objetos dotados de inteligência artificial. O ser humano tal como vem ao mundo é uma forma obsoleta; esse hardware problemático, passível de problemas como doença e velhice, não é compatível com o software, a mente humana; de acordo com esta vertente, o homem pode fazer o download de sua mente num corpo melhor.

Essa vertente faz a leitura o avanço tecnológico a partir de uma interpretação gnóstica: assim como nas primeiras eras cristãs o místico buscava sua ascensão por meio do conhecimento esotérico, o homem moderno vê na tecnologia uma possibilidade de superação de suas próprias limitações físicas. Aqui, a consciência, numa espécie de salto ontológico, se transforma numa nuvem de dados, não restrita aos limites e ditames da individualidade, o corpo tem suas potencialidades infinitamente estendidas e suas imperfeições completamente suprimidas. Produções como Lucy (2014) e Transcendence (2014) tratam dessatechno-gnose, postulando uma nova etapa na escala evolutiva ou uma nova instância na cadeia do ser.

Uma segunda clivagem detém-se na superação do humano através das transformações genéticas, uma sugestão menos radical porque não anuncia a obsolescência do humano, mas que traz, no bojo, o conceito de eugenia, que sugere um possível aprimoramento da raça através de uma limpeza dos “humanos deficientes”. Este arriscado pensamento que funciona como justificativa pseudocientífica para o nazismo é encontrado no drama tecnológico Gattaca (1997), onde a seleção genética tecnológica atinge tal ponto de revelar as disfunções e patologias de um embrião, bem como sua personalidade. Neste futuro distópico, a tecnologia reprodutiva cria novos conceitos de classes sociais e preconceitos, uma espécie de sistema de castas onde aqueles gerados naturalmente são inferiores tanto no aspecto físico e vitalidade quanto nas aptidões, virtudes e vícios e, portanto, subalternos aos gerados a partir da intervenção genética.

Semelhante questionamento é proposto na animação Ghost in the shell (1995): se o DNA humano nada mais é do que uma sequência ordenada de informações que regem todos os processos físico-químicos, então a “alma humana” é um fluxo de informações que não somente pode ser transferido ou alocado em diferentes suportes, como também pode ser dissecada mediante a tecnologia,de modo que é possível até configurar a personalidade, caráter, temperamento e propósitos existenciais do sujeito.

A terceira linha de pensamento, com a qual Laymert se associa, considera que as duas linhas anteriores constroem uma falsa noção de obsolescência do homem, uma narrativa forjada pelo capitalismo e a crescente tecnociência. Partem, portanto, do pressuposto de que não há obsolescência do humano, propondo o termo transumano no lugar de pós-humano, que se assemelha ao Übersmench nietzschiano. Esta clivagem propõe pensar o binômio homem-máquina numa forma não polarizada, mas complementar, compreendendo em que medida os humanos são mediados por máquinas e que tipo de transformações ainda podem ser feitas no homem.

Uma abordagem mais próxima desta visão não determinista do homem maquinado que encontramos no filme Her, onde um sistema operacional dotado de inteligência artificial, apesar de sua superioridade racional (pois é desenvolvido em redes neurais e está, a todo tempo, captando e gerando novas informações), essa tecnologia não mina a existência do homem, não torna-o obsoleto — se em algum momento denuncia sua humanidade, é num sentido de estabelecer contraste com a personalidade da máquina:

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