Possibilidades de expansão para o cinema. King Kong 360 3D

Em “A Forma Cinema: Variações e Rupturas” André Parente se indaga sobre as mudanças no dispositivo do cinema proporcionadas pelas novas mídias. Assim como Parente, Leon Charney e Vanessa Schwartz também pensam o cinema como um dispositivo aberto desde sempre, porém, sua multiplicidade teria sido ocultada por sua forma dominante. A partir da ideia de dispositivo, Schwartz, Charney e Parente refletem sobre as potencialidades de reinvenção ofertadas pela convergência entre novas tecnologias e cinema. Jeffrey Shaw é outro autor que se propõe a pensar o cinema de maneira expandida, para ele, cinema e tecnologias estão ligados de forma que o usuário pode interagir com as imagens, tornando-se câmera e editor.

Pensar o cinema como dispositivo é pensar em novas experiências, o parque da Universal Studios dá um exemplo: King Kong 360 3D é  a maior experiência em 3D do mundo. Criada por Peter Jackson, a atração conta com duas telas curvas, cada uma medindo aproximadamente 57 metros de largura por 13 metros de altura – o equivalente a 16 salas de cinema. As telas cercam o bonde que leva os turistas pelo passeio no parque. Além das enormes telas, há efeitos mecânicos, o bonde gira e treme conforme a sequência de imagens, proporcionando a sensação de estar dentro da cena.

King Kong 360 3D converge as telas em um espaço arquitetônico imersivo, a apropriação das tecnologias e do dispositivo do cinema pelo parque de diversões fazem com que o cinema extrapole sua forma rígida e hegemônica: a sala de cinema, o projetor e os filmes.

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Analisando o Brenda

Um novo modelo de análise de mídia é proposto por Jose van Dijck em “Cultura da Conectividade”, a autora busca compreender a evolução das mídias sociais num panorama de uma cultura da conectividade cada vez mais abrangente e preencher as lacunas deixadas pelas formas já existentes de análise que distanciam a interação usuário-tecnologia da estrutura socioeconômica organizacional. Para tal, a autora propõe um novo modelo heurístico que associa a Teoria Ator-Rede de Bruno Latour à Teoria da Política Econômica, as teorias utilizadas pela autora operam em níveis diferentes, porém, complementares.

brendaLevando em conta o modelo de Dijck, proponho uma breve análise do Brenda, aplicativo de encontros voltado para mulheres lésbicas.

Tecnologia (Technology)

O Brenda foi lançado em 2012 pela Bender Social Networking Ltd e se tornou o aplicativo mais popular de relacionamentos para mulheres lésbicas, bissexuais e curiosas do mundo. No Brasil, o aplicativo alcançou a marca de 30 mil usuárias cadastradas em 2013, em entrevista ao site da Carta Capital, Steven Bender, presidente da empresa dona do aplicativo revela: “Foi uma surpresa pra gente. Quando se coloca um aplicativo numa loja virtual, como a Apple Store, imediatamente ele fica disponível para o mundo todo e não dá para prever onde terá mais acessos. Mas não tínhamos ideia que faria tanto sucesso no Brasil, que está muito, muito distante do Reino Unido e Espanha onde temos escritórios”.

Usuárias (Users/Usage)

Os perfis do Brenda devem ser preenchidos com as seguintes informações: nome, idade, altura, peso (não obrigatório) e foto. Não é necessário cadastro de endereço de email. Em seguida, o aplicativo mostra todas as usuárias que estão logadas e conectadas à internet, é possível ver as fotos e informações básicas sobre cada uma. Ao selecionar um perfil, são exibidas também a última vez que a pessoa esteve online e sua galeria de fotografias, caso haja interesse, é possível iniciar uma conversa. É importante ressalvar que Brenda funciona por geolocalização, portanto, pessoas que estão num raio de distância menor são priorizadas. A versão gratuita do aplicativo envia notificações quando chegam mensagens, já na versão paga, que cusa U$3 por mês, a usuária pode descobrir quantas e quem são as mulheres que visitaram seu perfil e até mesmo quem a bloqueou. De acordo com a matéria “Mulher, solteira, lésbica procura… E acha pelo celular”, 9 entre 10 usuárias procuram por sua cara metade, diferente dos homens gays cujo objetivo ao utilizar aplicativos de encontros é conseguir sexo rápido.

Problematizações acerca do papel do autor – de Walter Benjamin à Stephanie Ribeiro

O início da década de 1930 foi turbulento para a Alemanha, o país passava pela ascensão do fascismo e, concomitantemente, a esquerda alemã é seccionada entre o Partido Social Democrata da Alemanha e o Partido Comunista Alemão. Em abril de 1934, Benjamin pronunciou a conferência “O autor como produtor” no instituto para o Estudo do fascismo em Paris. Na ocasião Benjamin deixa explícito seu alinhamento com a Revolução Soviética e seu engajamento na luta contra o fascismo alemão, também se preocupa em tecer elogios à renovação da dimensão literária da imprensa soviética em contraposição à imprensa burguesa ocidental, sendo a segunda alvo de duras críticas do autor.

Em “O Autor como Produtor” problematiza-se a autonomia do autor, para tal, Benjamin se ocupa em contrapor a tendência política à originalidade. Ele indaga: como a obra literária se situa dentro das relações de produção da época? Em sua análise materialista, Benjamin separa os “escritores progressistas” ou “operativos” dos “escritores burgueses de esquerda” ou “rotineiros”: os primeiros subvertem os meios de produção que são usados para explorar o proletariado; os segundos apenas se solidarizam com o proletariado no plano das ideias, levando em conta que o aparelho burguês é capaz de assimilar os conteúdos que lhe são antagônicos e os transformar em mercadorias lucrativas.

Para Benjamin, o intelectual se define pela posição que ocupa no processo produtivo, o autor deve atuar como produtor e se solidarizar com os proletários e os demais produtores. O exemplo de autor produtor citado por Benjamin é Brecht: o teatro épico brechtiano desloca os consumidores para a esfera da produção, oportunizando um confronto ao aparelho burguês.  Brecht se apropria do princípio da interrupção, popularizado por meio do cinema e do rádio, para combater as ilusões por parte do público e chamá-lo para a reflexão.  A interrupção, para Benjamin, exerce uma função organizadora:

“Ela imobiliza os acontecimentos e com isso obriga o espectador a tomar uma posição quanto à ação, e o ator, a tomar uma posição quanto ao seu papel”. (BENJAMIN, 1994, p. 133).

O artigo “Quando achamos que somos revolucionários sendo apenas privilegiados” de Stephanie Ribeiro retoma a discussão de Benjamin acerca do papel do autor. Ao discorrer sobre a postura de Gregório Duvivier (ator e escritor que possui uma coluna semanal na Folha de São Paulo) de postar uma fotografia em redes sociais com um cigarro de maconha na boca em protesto pela descriminalização das drogas, Ribeiro reflete: “Não seria a real transgressão do privilegiado assumir que ele não é o centro daquela discussão, e dar voz a quem realmente é impactada por ela? No caso de Gregório, usar o espaço onde ele posta foto com becks para falar que ‘Jovens negros estão vivendo uma situação de genocídio e encarceramento devido a não descriminalização das drogas, afinal a guerra às drogas nada mais é que uma guerra com endereço certo e com indivíduos definidos pela sua cor’”. Em seguida ela completa: “Não temos minorias falando sobre si mesmas, nesses espaços, ganhando credibilidade e inclusive os benefícios financeiros disso”.

duvivier

Ribeiro nos dá um exemplo de como o escritor burguês travestido de revolucionário opera para converter os meios de produção que o capital lhe põe ao alcance em lucrativos artigos de consumo. Duvivier, se solidariza com aqueles que diz defender apenas no plano das ideias, tendo em vista que não dá voz a aqueles que são mais prejudicados na luta contra as drogas, o povo negro.

(+18) O pós-humano em Orlan e Ron Athey [Camille e Carolina]

No livro “O Corpo Biocibernético e o Advento do Pós-Humano”, Lucia Santaella discorre sobre o estatuto do ser humano na entrada do século XXI, segundo ela, o corpo está em modificação por conta das extensões tecnológicas que são acopladas a ele. Esse corpo ainda em definição é chamado de biocibernético.

Santaella, ao longo de sua escrita, desenha um panorama da relação entre máquina e o humano, passando pelas quatro fases do homem de Wiener, pelo conceito do Autopoiesis de Maturana e Varela e chegando no ciborgue de Donna Haraway. A figura do ciborgue  é um híbrido entre máquina e organismo que aparece para Haraway como metáfora para a crítica da identidade em favor das diferenças e reinvidicando uma possível apropriação politicamente responsável da ciência e da tecnologia. O ciborgue condensa as transformações sociais e políticas ocorridas no Ocidente no final do século XX.

Levando em conta o ciborgue como base de um novo modelo epistemológico para Haraway e as múltiplas realidades de corpos híbridos discutidos por Santaella, podemos pensar nos performers de body art Ron Athey e Orlan. Ambos modificam seus corpos por meio de intervenções cirúrgicas e próteses.

[ATENÇÃO: os vídeos abaixo contém imagens que podem ser perturbadoras].

 

As performances de Athey e Orlan desestabilizam os limites corporais mais ou menos estáveis antes do advento do ciborgue e questionam o que é o humano. Em Santaella (2003, p. 207) vemos que “O descarnamento da subjetividade provocado pelas novas tecnologias tirou o chão dessa ilusão de estabilidade”.

 

Aura e memes: coexistência possível?

No ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” de 1936, Benjamin busca desenvolver uma teoria materialista da história da arte. O autor argumenta que a “aura” da obra de arte é apagada pela reprodutibilidade técnica. O objeto artístico perde seu valor de culto e ganha valor de exposição por conta de sua ampla reprodução propiciada pela tecnologia industrial vigente.

Benjamin aponta que a reprodução das obras de arte não é um fenômeno inédito, segundo ele, a imitação era antes praticada por discípulos, mestres e terceiros, porém com interesses distintos daquele visado pela indústria: o lucro. A reprodutibilidade técnica acaba por suprimir a “aura”, ou seja, o aqui e agora da obra, o objeto artístico autêntico, quando reproduzido perde sua autenticidade e autoridade diante das cópias.

A “ciber-cultura-remix” (Lemos, 2005) faz com que usuários e usuárias se transformem em produtores de conteúdos que são distribuídos e remixados rapidamente na internet. A cibercultura traz, pela primeira vez, a qualquer indivíduo a possibilidade de criar e publicar informações em tempo real, sob diversos formatos, podendo inclusive acionar demais usuários para criações colaborativas na rede.

A página Artes Depressão possui um grande acervo de remixagem de obras de arte, as imagens dos objetos artísticos são transformados em memes que rapidamente de disseminam pelas redes sociais. A partir de uma leitura benjaminiana podemos entender que os memes colaboram para a perda do valor de culto e ganho de valor de exposição das obras de arte.

artes

Se Benjamin se inquietava com a destruição da “aura” das obras de arte no início do século XX, cabe questionar: em tempos do uso do ciberespaço e softwares para a criação, disponibilização e remixagem de conteúdos é possível pensar em “aura”?

 

Referências:

BENJAMIN, W. A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica. In. Magia e Técnica, Arte e política. Obras escolhidas I. Trad. Rouanet S. P. São Paulo: Brasiliense, 198SD.

LEMOS, André. Cibercultura Remix. In: Seminário “Sentidos e Processos”. No prelo, São Paulo, Itaú Cultural, agosto de 2005.

Senhores ou escravos? A técnica em Heidegger e a dependência da internet

Martin Heidegger discute em “Ensaios e Conferências” a essência da técnica, segundo ele, esta remete ao nosso modo de ser, tendo em vista que impulsiona o ser humano a buscar o controle sobre o movimento da existência. A essência da técnica, portanto, se relaciona antes com um aspecto ontológico do que com um técnico. Dessa maneira, seria possível vislumbrar outros modos de ser caso a essência da técnica fosse compreendida de modo que o humano pudesse estabelecer uma relação mais harmoniosa com a mesma.

Entretanto, o instrumentalismo (que norteia a ciência positivista) faz com que nossa espécie se sinta à vontade para (tentar) impor seu domínio sobre o mundo, inclusive sobre a técnica – o que segundo Heidegger é uma ilusão: a técnica não está ao alcance de nosso controle ou vontade, porém, tampouco nos governa, quanto mais nos investimos da condição de dominadores da técnica, mais somos dominados por ela.

É possível estabelecer um paralelo entre o pensamento heideggeriano e uma nova situação com a qual nos deparamos na contemporaneidade: a dependência da internet. A popularização do acesso aos computadores e à rede no último quarto do século XX não nos trouxe apenas aspectos positivos. De acordo com o site do Serviço do Ambulatório de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo que fornece informações e ajuda a adictos da rede

“Cada vez mais pessoas buscam ajuda para o tratamento das dependências tecnológicas (internet e vídeo game), devido a vários aspectos psicológicos (baixa autoestima, depressão, fobias sociais, dentre tantos outros) e sociais (a solidão, isolamento e o estilo de vida nos grandes centros urbanos)”.

Ainda segundo o site, o panorama é resultado do crescimento do acesso à internet e da tendência ao sedentarismo e reclusão emocional.

Dependência Internet

A constatação de que existem pessoas dependentes da internet nos mostra que o convívio do humano com a essência da técnica tem sido problemático. O amplo acesso à internet que parecia satisfazer o desejo instrumental de nos tornarmos senhores da técnica também revela nossa faceta de escravos. A ambivalência das potencialidades da rede – que tanto pode conectar como isolar, servir ao vício ou a liberação – nos leva a perguntar: será a relação harmoniosa entre humano e a essência da técnica uma ilusão?