Trocando tempo

A autora holandesa José van Dijck analisa as redes sociais e as interações online por uma visão bastante interessante, pensando em um modelo que não separa a ação do usuário e a tecnologia da estrutura organizacional dessas redes. Em um momento especialmente rico nesse sentido, visto que a todo momento surgem novas plataformas para interação social, essa visão se mostra ainda mais pertinente.

Ao buscar um laço entre a Teoria Ator-Rede (de Bruno Latour) e a Teoria da Política Econômica (de Manuel Castells), a autora propõe um modelo que se presta a fazer uma análise mais orgânica das redes sociais, em contraponto aos modelos teóricos vigentes que, em geral, buscam entender cada aspecto em separado. A ideia é que busquemos um olhar que promova a união das redes idealizadas e mantidas por pessoas e tecnologias com a infraestrutura legal, política e econômica. Não à toa, vivenciamos no Brasil problemas recentes que se relacionam com esses aspectos, como a decisão judicial que bloqueou o aplicativo WhatsApp ou as inúmeras cidades que vem proibindo o aplicativo de transporte particular UBER. As tensões produzidas vão muito além da própria ideia das redes e passam pelos aspectos políticos, econômicos e legais.

Whatsapp

Um site de rede social interessante para aplicarmos a teoria de van Dijck é o Bliive, uma rede social colaborativa que tem como objetivo a troca de tempos. Cada usuário se cadastra com o que possui de habilidades e se dispõe a passá-la adiante. Existem desde pessoas oferecendo aulas de violões, companhia para degustação de vinhos e até cursos de artesanato e de culinária. Ao disponibilizar seu tempo para outras pessoas o usuário recolhe créditos que, por sua vez, podem ser trocados por habilidades oferecidas na plataforma.

bliveEconomicamente a plataforma acaba se enquadrando no que especialistas chamam de “Time Money”. No entanto, se pensarmos nas implicações que isso pode trazer, notamos que de algum modo alguns serviços disponibilizados na plataforma podem ser concorrência a empresas tradicionais. Por enquanto, contando com pouco mais de 15 mil usuários, talvez a rede social não incomode a tantas empresas. No entanto, com a captação de mais usuários pode vir a causar problemas a empresas que trabalham no modelo econômico tradicional e isso pode implicar barreiras legais e políticas à plataforma. Com isso podemos perceber que a ideia de van Dijck de não separar os vários aspectos que circundam as redes sociais é extremamente aplicável à realidade e oferece boas análises.

A mídia propagável de Jenkins tem mesmo tanto poder?

No mais recente livro de sua autoria, Henry Jenkins faz um passeio por suas próprias teorias (revisita e até sobrepõe algumas) para ensejar um novo momento, uma nova configuração midiática. O célebre autor de “Cultura da Convergência”, traz em suas novas teorias a ideia de que o conteúdo midiático, caso pretenda alcançar o sucesso, deve ser, obrigatoriamente, espalhável. A ideia vai na linha de afirmações contundentes que o autor estadunidense costuma fazer.

Ainda assim, se observarmos o contexto atual, é bem provável que as palavras de Jenkins se traduzam na prática. Vivemos uma era em que cada vez mais importante é compreender a nova disposição entre consumidores e produtores. O mundo contemporâneo tem rejeitado formas de controles autoritárias desses conteúdos. Ou seja, se o conteúdo é de qualidade e tem características de um material que se dissemina sem muito esforço, isso vai acontecer, quer os produtores queiram ou não.

Viral: Acabou Jéssica? Vídeo se popularizou e virou jogo, memes e muito mais.

Bons exemplo disso são os memes que surgem do nada e acabam tomando proporções inimagináveis, antes que nós mesmos entendamos o que os tornam tão propagáveis assim. É o que acontece também com artistas que acabam chegando a grandes emissoras, gravadores, companhias, graças a conteúdos propagáveis lançados na web.

Um conceito interessante trazido por Jenkins e que mostra bem o atual estágio das produções midiáticas é o de economia moral. Basicamente, trata-se de trocas entre marca e consumidores que vão além da retribuição financeira. Vale aqui, muito mais, a identificação entre consumidor e marca, o prazer de criar algo com o qual esse consumidor tenha empatia e o reconhecimento de outros consumidores que partilhem de interesses parecidos e se liguem através de comunidades.

O que a marca Doritos faz com seu comercial do Super Bowl é um grande exemplo nesse sentido. Todo ano a companhia investe 9 milhões de dólares em dois comerciais de 30 segundos e deixa a criação desses a cargo de seus próprios consumidores. Com isso a Doritos ganha, não só a defesa da marca por parte de seus fiéis seguidores mas também uma divulgação que se arrasta por cerca de um ano (tempo em que o concurso fica no ar, dentre envio de vídeos e seleção). Isso ocorre porque a Doritos não limita os direitos de propagação desse conteúdo, bem como confere a ele qualidades de um produto espalhável, propagável.

A enunciação de um novo sujeito.

Em “O sujeito na tela: modos de enunciação no cinema e no ciberespaço”, temos contato com uma análise crítica de Arlindo Machado no tocante das reflexões, promovidas pelas artes, acerca do sujeito e do próprio fazer de algumas dessas (o cinema, mais especificamente). A obra parte dos impactos promovidos por recursos tecnológicos abundantes e que alteram a sociabilidade e a cultura humana. Consequentemente, as artes (sobretudo as visuais, no caso do livro) absorvem também esse movimento.

 

Machado divide a obra em duas partes: a primeira, uma análise de filmes clássicos em que apresenta diferentes espécies de sujeitos cinematográficos, baseados na teoria da enunciação cinematográfica; na segunda, o autor busca uma relação entre a crise dessas teorias com o surgimento de novas mídias digitais. Essa divisão se mostra muito interessante e didática, já que mostra que esses modos de enunciação privilegiavam o processo de recepção do filme e o modo como a posição, a subjetividade e os afetos do espectador eram pensados para o cinema. É bom que se leve em consideração o fato de que Machado trabalha com a ideia de que o cinema seria uma referência fundadora para todo o audiovisual (inclusive o ciberespaço), o que pode ser questionado por diversas vias.

No início dos anos 1980 o cenário que se percebe é uma hegemonia dos meios que o autor chamou de pós-cinematográficos e a partir daí, até mesmo o cinema começou a ser produzido pensando, muito mais, nesses outros modos de consumo (Videocassete, laserdisc, DVD, aparelho de Blue Ray, streaming…). É o que Machado chama de mudança de estatuto do dispositivo, do texto e do espectador, que surge justamente no momento em que a sala escura do cinema perde sua hegemonia, sua superioridade sobre outros meios. O autor aponta também para o recurso do zapping, ao falar do controle-remoto. Para ele, o dispositivo introduz uma descontinuidade através do movimento de troca de canais. Além disso, podemos pensar no recente recurso do “Ad skipping” que também vem a romper com a continuidade. Embora o nome indique apenas a possibilidade de pular os comerciais, precisamos entender também que esse recurso funciona para qualquer tipo de produção, de modo que o espectador pode adiantar e atrasar a produção à qual assiste de forma fácil e rápida.

De toda essa vasta gama de possibilidades, Machado identifica então que o novo sujeito que surge é um sujeito agenciador, que dialoga e interage com as imagens, sons e demais estímulos possíveis. Diferentemente da reação assustada dos espectadores ao primeiro filme exibido nos cinemas, correndo de um trem que vinha, supostamente, em sua direção, esse novo espectador não se assusta com aquilo que “sai” da tela, pelo contrário, interage com ele e produz novos significados.

 

Estudo dirigido – Aula 7

Pergunta: Qual é a relação que pode ser estabelecida entre os textos de Arlindo Machado (Arte e Mídia), o conceito de interestética, de Priscila Arantes e a reflexão de Mímeses Tecnológica e Interatividade de Bragança de Miranda?

O livro Arte e Mídia, de Arlindo Machado, apontava para um momento de hibridização cultural (que após sua publicação, continuou a ganhar força e se estabelecer)  que nunca havia sido visto na história. Isso transforma a contemplação artística em diversos pontos, o que equivale pensar que a arte acaba saindo de um padrão fechado (dentro de museus, galerias, teatros, etc.) para um aberto (ao ar livre, na internet…). Claro que isso também permite maior acesso a uma ampla massa de contempladores, antes afastados da arte por questões econômicas, sociais e até políticas, o que então nos leva a uma mudança do estatuto da arte perante a sociedade.

Já o pensamento de Priscila Arantes ao trazer o termo “interestética” acaba por nos dar entendimento parecido. A autora enxerga na estética atual uma mudança, já que a mesma é permeada por dispositivos tecnológicos e as suas mais diversas fronteiras, antes tão bem estabelecidas, já são de difícil observação. Para Arantes, não há como negligenciar isso se olharmos para a produção estética atual que mescla artistas, engenheiros e programadores em busca de um mesmo ideal. A ideia trazida por ela é de que há um fluxo informacional intenso entre as áreas e por isso a estética acaba por se influenciar de múltiplas visões, enxergando nisso uma tendência em direção à exploração da interface como forma de estetização.

Por fim, Bragança de Miranda pontua que as artes interativas continuariam movimentos artísticos de vanguarda, visto que as artes interativas corroboram com o ideal desses movimentos, o de abolir a distância que separa a arte da vida, do cotidiano. Para o autor, as artes interativas possibilitam uma mimese em que a construção da arte é a própria construção da realidade, tornando cada vez mais difícil a separação entre esses dois aspectos. Daí surge um novo espaço que possuiu consciência técnica e provoca uma “renaturalização” da experiência. Isso é possibilitado pelo tempo de resposta que, devido a essas interfaces interativas, é muito mais rápido, ocorrendo inclusive em tempo real.

Os conceitos acima acabam por se encontrar, no sentido de demonstrar que a transformação artística que vem ocorrendo nas últimas décadas leva a um outro entendimento do que é a arte. A técnica segue deixando de ser uma vilã, a responsável pela queda da alma da obra de arte, passando a ser entendida como um mecanismo de modificação, de quebra de paradigmas e de experimentações.

Estudo dirigido – Aula 5

3.Qual  é a relação  entre a  seguinte  passagem  do texto  de Santaella  e  o  conceito  de  arte tecnológica   exposto   no   texto   de   Martin   Heidegger   “The   question   concerning technology”?

“Nessa medida, a arte tecnológica se dá quando o artista produz sua obra através da mediação de  dispositivos  maquínicos,  dispositivos  estes  que materializam  um  conhecimento  científico, isto é, que já têm uma certa inteligência corporificada neles mesmos.”

Há uma interface no pensamento de Martin Heidegger e Lúcia Santaella (especificamente no texto “A questão da técnica”, do primeiro, e do livro Culturas e artes do pós-humano, da segunda) e que nos ajuda a entender a questão colocada acima. Esse ponto convergente encontra-se no entendimento de que a tecnologia possui um saber em si própria que, empodera o corpo humano ao ir além desse, levando-o a dominar o conhecimento de técnicas e saberes.

Santaella entende que a arte sempre fez uso de técnicas, ou seja, os procedimentos necessários para a elaboração de alguma coisa. Assim, a autora chega à conclusão de que a arte foi feita de dois modos distintos, um antes da revolução industrial e outro depois. Do mesmo modo, Heidegger acaba por fazer uma distinção parecida, embora se referenciando no pensamento grego, ao separar a arte em antiga e moderna, tendo como paradigma a produção técnica. A arte antiga estava associada a um desocultamento de algo, uma descoberta através do trabalho técnico. A arte moderna privilegia a produção, fazendo um desvelamento mas de modo diferente, o que o autor enxerga com o conceito de “armação”.

Essa passagem, para Santaella, fica muito clara com a chegada da câmera fotográfica que finaliza uma era em que as imagens eram construídas artesanalmente e inaugura um momento em que as artes são, agora, tecnológicas. E o saber técnico que existe, já incorporado, nessas máquinas, prescinde do homem para fazê-lo acontecer. Nesse ponto observamos uma confluência do conceito de armação, de Heidegger, com o pensamento de Santaella, que sugere que a técnica atual, moderna, buscando sempre os caminhos mais fáceis e produtivos, acaba deixando em segundo plano a beleza do mundo e seus potenciais.

As compreensões do pós-humano [Fram e Vanessa]

Em entrevista do grupo de pesquisa “Conhecimento, Tecnologia e Mercado”, o pensador brasileiro Laymert Garcia dos Santos distingue as três principais vertentes de compreensão do pós-humano em relação ao homem, à tecnologia e à sociedade.

O primeiro eixo de compreensão do pós humano o entende como uma superação do humano — que é literalmente suplantado pelas formas de vida superiores, como os robôs e objetos dotados de inteligência artificial. O ser humano tal como vem ao mundo é uma forma obsoleta; esse hardware problemático, passível de problemas como doença e velhice, não é compatível com o software, a mente humana; de acordo com esta vertente, o homem pode fazer o download de sua mente num corpo melhor.

Essa vertente faz a leitura o avanço tecnológico a partir de uma interpretação gnóstica: assim como nas primeiras eras cristãs o místico buscava sua ascensão por meio do conhecimento esotérico, o homem moderno vê na tecnologia uma possibilidade de superação de suas próprias limitações físicas. Aqui, a consciência, numa espécie de salto ontológico, se transforma numa nuvem de dados, não restrita aos limites e ditames da individualidade, o corpo tem suas potencialidades infinitamente estendidas e suas imperfeições completamente suprimidas. Produções como Lucy (2014) e Transcendence (2014) tratam dessatechno-gnose, postulando uma nova etapa na escala evolutiva ou uma nova instância na cadeia do ser.

Uma segunda clivagem detém-se na superação do humano através das transformações genéticas, uma sugestão menos radical porque não anuncia a obsolescência do humano, mas que traz, no bojo, o conceito de eugenia, que sugere um possível aprimoramento da raça através de uma limpeza dos “humanos deficientes”. Este arriscado pensamento que funciona como justificativa pseudocientífica para o nazismo é encontrado no drama tecnológico Gattaca (1997), onde a seleção genética tecnológica atinge tal ponto de revelar as disfunções e patologias de um embrião, bem como sua personalidade. Neste futuro distópico, a tecnologia reprodutiva cria novos conceitos de classes sociais e preconceitos, uma espécie de sistema de castas onde aqueles gerados naturalmente são inferiores tanto no aspecto físico e vitalidade quanto nas aptidões, virtudes e vícios e, portanto, subalternos aos gerados a partir da intervenção genética.

Semelhante questionamento é proposto na animação Ghost in the shell (1995): se o DNA humano nada mais é do que uma sequência ordenada de informações que regem todos os processos físico-químicos, então a “alma humana” é um fluxo de informações que não somente pode ser transferido ou alocado em diferentes suportes, como também pode ser dissecada mediante a tecnologia,de modo que é possível até configurar a personalidade, caráter, temperamento e propósitos existenciais do sujeito.

A terceira linha de pensamento, com a qual Laymert se associa, considera que as duas linhas anteriores constroem uma falsa noção de obsolescência do homem, uma narrativa forjada pelo capitalismo e a crescente tecnociência. Partem, portanto, do pressuposto de que não há obsolescência do humano, propondo o termo transumano no lugar de pós-humano, que se assemelha ao Übersmench nietzschiano. Esta clivagem propõe pensar o binômio homem-máquina numa forma não polarizada, mas complementar, compreendendo em que medida os humanos são mediados por máquinas e que tipo de transformações ainda podem ser feitas no homem.

Uma abordagem mais próxima desta visão não determinista do homem maquinado que encontramos no filme Her, onde um sistema operacional dotado de inteligência artificial, apesar de sua superioridade racional (pois é desenvolvido em redes neurais e está, a todo tempo, captando e gerando novas informações), essa tecnologia não mina a existência do homem, não torna-o obsoleto — se em algum momento denuncia sua humanidade, é num sentido de estabelecer contraste com a personalidade da máquina:

O cinema visto como um corpo: Dubois, Birdman e uma passagem que nunca é feita.

A reflexão proposta por Phillipe Dubois na obra “Cinema, Vídeo, Godard”, apresentada também por Arlindo Machado, traça uma interessante reflexão sobre o panorama do cinema e algumas transformações que o atingem.

A partir de um resgate da história do cinema e do vídeo, Dubois nos leva a questionar como alguns aspectos associados às tecnologias de informação e comunicação acabam modificando o papel do cinema.

Pode-se dizer que o cinema deixou de ser uma arte apenas restrita à contemplação. Na atualidade o telespectador atinge uma postura mais ativa, já que lhe é oferecido também uma gama de mecanismos para entender melhor a história. Com isso o mesmo passa a participar mais do contexto de significação dos produtos cinematográficos.

Um ponto bem peculiar da visão de Dubois é quando traz a ideia de que o filme (o cinema) é como nosso corpo, tendo duas faces. Uma, segundo o autor, seria o filme montado, pronto, que acaba sendo elevado a um estado superior. A outra, seria o filme decaído. Daí Dubois indica que, justamente por não haver um olhar possível que junte essas duas visões, residiria o impossível do dispositivo cinematográfico. Para exemplificar, o autor aponta para os filmes que tentam mostrar o cinema sendo feito, alegando que tal tarefa nunca consegue se cumprir em vista de que nosso olhar não consegue transpor essa diferença entre as duas faces do cinema. A produção vencedora de alguns Oscars, Birdman, se encaixaria na premissa de Dubois, já que flerta com a metalinguagem em vários momentos e segundo o autor, seria apenas mais uma tentativa de se realizar a passagem entre as duas faces do cinema, passagem essa que nunca é concretizada.